O juiz chamado à colação


Cada região do Rio Grande do Sul tem as suas peculiaridades culturais. Nas cidades de fronteira predomina o jeitão gaúcho e a larga sinceridade. Lembro de um restaurante no Alegrete, onde o garçom - quando escolhi o meio frango com polentas - permaneceu parado e pensativo até sentenciar: “Doutor, tenho que ser honesto, é pouca comida para um homem do seu tamanho”. 

Respirei fundo e complementei o pedido, com um salsichão. “Agora sim vai dar para matar a sua fome” - sentenciou o garçom.

----------

Em uma família da fronteira, cujo patriarca cultuava as tradições gauchescas, preponderava a determinação para que todos os machos “se formassem na advocacia”. Um deles ao iniciar na profissão recebeu uma recatada senhora, vestida com discrição e que deixava transparecer muito constrangimento. 

Depois de sentir-se mais à vontade ela contou o seu caso. Era de separação do marido que ela insistia em frisar que “não suportava mais”.  O marido não bebia, era trabalhador, fiel e um bom pai.  Em todos os contatos a causa especifica jamais fora revelada.

Ajuizado o pedido de separação, como de praxe é designada uma audiência de tentativa de reconciliação.

Frente à frente na mesa de audiências, os cônjuges acompanhados dos advogados, veem o jovem juiz recém chegado da capital sentar-se na cadeira de espaldar alto postada abaixo de um grande crucifixo.

Respeitosamente e com muita cautela, o magistrado pondera acerca da importância da família para a formação dos filhos.  O clima é de serenidade, contrariando a hostilidade habitualmente reinante naquela sala.

Por oportuno, o juiz consulta a mulher: “Minha senhora, pense bem em dar uma segunda chance para o seu esposo”. 

Ela, com a face vermelha e a boca trêmula, de pronto reage, quase perdendo o controle: “Doutor esse homem é um tarado!”

E afastando consideravelmente uma mão da outra em paralelo, para dar uma ideia de tamanho =algo em torno de uns 25 centímetros - a mulher desabafa interrogativa: “O senhor sabe o que é levar um troço assim, todas as noites?”

O magistrado de imediato levanta-se. E logo alerta: “Minha senhora eu não sei nada disso...”

A separação é consumada e devidamente averbada.