Helicóptero em que se acidentou Ricardo Boechat tinha falhas de manutenção


Em relatório divulgado ontem (29), o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira, concluiu que uma série de falhas de manutenção levou à queda do helicóptero que transportava o jornalista Ricardo Boechat, 66 de idade. Ronaldo Quattrucci, de 56 anos, piloto que controlava o voo, também morreu. O acidente ocorreu em 10 de fevereiro de 2019.

Boechat era o único passageiro que fez a fatídica viagem de ida e volta, de São Paulo a Campinas, onde fora participar de uma convenção do Laboratório Libbs, pujante indústria farmacêutica.

Segundo o Cenipa, o aeronauta tomou “atitudes consideradas erradas” durante a operação do helicóptero. De acordo com o relatório, o piloto não verificou se os instrumentos de bordo estavam funcionando perfeitamente e suas atitudes durante o voo também contribuíram para o acidente.

O relatório informa que alguns itens foram cruciais para a queda do helicóptero, principalmente “as falhas no compressor da aeronave, que não teve nenhuma atualização ou troca completa desde 1988”. O compressor estava com peças vencidas no momento do acidente. Conforme o Cenipa, o tubo de distribuição de óleo da aeronave também “estava com o calendário de troca excedido várias vezes”.

Outros itens que contribuíram para a queda foram o desgaste anormal de algumas peças - o que levou à sobrecarga da aeronave e ao rompimento do eixo de ligação do rotor da cauda no momento da queda - , e a indisciplina por parte de Ronaldo, que, segundo a FAB, realizou um voo de táxi aéreo sem ter autorização operacional para isso.

A aeronave estava registrada apenas para voos de aerofotogrametria.

Antecipação de tutela

A 38ª Câmara de Direito Privado do TJ de São Paulo manteve no dia 29 de janeiro deste ano a decisão que, em caráter de tutela de urgência, obrigou a farmacêutica Libbs a pagar uma pensão mensal de R$ 86 mil à viúva e às filhas menores de idade de Ricardo Boechat.

A Libbs argumentou que não poderia ser responsabilizada pois quem organizou a convenção do laboratório foi a Zum Brazil Eventos Ltda., que por sua vez contratou a RQ Serviços Aéreos Ltda. para fazer o transporte aéreo de Boechat, de São Paulo a Campínas (ida e volta).

Mas, segundo o relator do caso, desembargador Spencer Almeida Ferreira, no contrato, a empresa farmacêutica “assumiu a responsabilidade pelo transporte de Boechat e por qualquer dano que ele viesse a sofrer por falta de segurança no evento”.

Além disso, a terceirização do serviço, segundo o juiz de primeira instância cuja decisão foi mantida, “não possui aparente força para descaracterizar a responsabilidade da empresa contratante, que foi beneficiária econômica do transporte”.

Segundo o acórdão, os desembargadores, “o valor da pensão é justificado pelo padrão de vida acima da média que Boechat proporcionava à família.

Empresa inspirada pela vida”

O Libbs foi o responsável pela escolha da RQ Helicópteros, dona da aeronave que se acidentou e que não tinha autorização para realizar transporte remunerado ou gratuito de passageiros. O piloto Ronaldo Quattrucci, também vítima do acidente, era sócio-proprietário da empresa, sediada em Santana de Parnaíba (SP). A autorização da ANAC era para prestar “serviços aéreos especializados de aerofotografia, aero reportagem e aero filmagem”.

Ironia coincidente, o Laboratório Libbs adotava, há vários anos, o slogan de “uma empresa inspirada pela vida”. E se anunciava como “uma indústria farmacêutica que tem o propósito de contribuir para que as pessoas alcancem uma vida plena”.

Seus números: 61 anos de existência; 13ª posição entre os laboratórios mais prescritos pelos médicos; 8ª posição em valor no mercado farmacêutico de varejo; 83.8% de seus produtos presentes em 60.300 farmácias no país; 2.500 empregados; produção anual de 50 milhões de unidades de medicamentos.