Neutralização do gênero: pior a emenda que o soneto


Em edição anterior, abordei aqui a existência, no Rio Grande do Sul, de uma lei estadual (Lei n.º 14.484, de 30 de janeiro de 2014) que obriga o servidor público a usar a chamada forma inclusiva de gênero, ou seja, sempre que alguma autoridade se dirigir a um grupo em que haja mulheres e homens, deve usar os dois gêneros; num ofício, por exemplo, deve adotar esta forma: “Senhores(as) servidores(as)”. Não se iludam, pois não é apenas no vocativo; para que haja coerência, deve-se fazê-lo no decorrer de todo o texto, sempre que se refira a homens e mulheres: “Estão todos(as) alertados(as)”, e assim por diante. Já vi tentativas de cumprimento da lei, mas nunca a vi cumprida de pleno. E jamais será. Tenho ouvido locutores de rádio e TV sandando “a todos e a todas”. Confesso que me faz sentir náuseas, mas em vez disso troco de emissora. Que falta de originalidade!

Mas, eis que surgiu a ameaça de uma novidade: em vez da forma “inclusiva de gênero”, alguém teve a “brilhante” ideia de criar uma solução neutra única; a grande vantagem sobre a inclusiva é que, por ser neutra, serve tanto para homens como para mulheres. E foi num tradicional colégio do Rio de Janeiro, o Liceu Franco-Brasileiro, que passou a saudar seus alunos pela forma “querides alunes”, em vez do tradicional “queridos alunos”, ou como seria a forma inclusiva “queridos(as) alunos(as)”. 

De imediato me surge a pergunta: Se no decorrer da mensagem tivesse que incluir o artigo, como seria: Saudamos “es querides alunes”. Seria coerente, não é? Mas se tivesse que incluir pais e mães, como seria a forma neutra, que não fosse masculina nem feminina. E para professores, qual ficaria valendo? O leitor deve estar concluindo que para advogadas e advogados a forma seria “advogades”; para magistrados e magistradas, “magistrades”, e assim por diante.

Felizmente, devido à pressão exercida pelos veículos de comunicação, com forte atuação do meu amigo Prof. Sérgio Nogueira, o Franco-Brasileiro foi sensato, voltando atrás.

O que pode justificar iniciativas como a desse estabelecimento de ensino e de governantes que têm esse tipo de iniciativa? Uma coisa é certa: não consultaram qualquer especialista na ciência chamada Linguística, pois este diria de imediato algo parecido com o que afirmou, de maneira clara e simples, o Prof. Sérgio Nogueira quando consultado: “Não acredito que isso venha a funcionar. A língua não se faz de fora para dentro. Não se cria uma regra e se impõe. O funcionamento de uma língua é natural, é espontâneo. Não acredito em imposições.” 

Se não fosse assim, por exemplo, estaríamos falando latim, pois o Império Romano tinha poderes para impor tudo que quisesse, ou melhor, quase tudo, pois não conseguiu impedir que novas línguas se criassem a partir do latim, num processo cultural espontâneo que não se deu de uma hora para outra, muito menos foi imposto por alguém com o poder da caneta e/ou das armas.

A origem dessas iniciativas é sempre a mesma: a vontade de estabelecer a igualdade de poder entre homens e mulheres, ou, como outros preferem, o empoderamento feminino. Segundo seus defensores, a forma consagrada é machista, na medida em que o masculino abrange tanto o homem quanto a mulher, tanto que a regra gramatical determina que basta haver um homem no grupo para a forma correta a ser usada ser o chamado masculino. É machismo? Pode ser, mas é a que o uso consagrou; não foi imposta por qualquer autoridade, nem pelos gramáticos, que não têm esse poder. Qualquer mudança só poderá ocorrer se o uso consagrar. Poderá acontecer, mas é processo, e como processo não será de uma hora para outra. Outra coisa certa: não será por medida legal; esta, assim como qualquer norma, só se dá por exigência da sociedade. 

Não se está aqui assumindo posição contrária à da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Abomino qualquer discriminação, seja de gênero, de religião, de raça ou de clube de futebol. No entanto, pergunto: esse tipo de ação poderá contribuir efetivamente para a igualdade de gêneros? Estará aí a salvação da causa feminina? Se estivesse, eu estaria a favor. Minha convicção é a mesma do Prof. Sérgio Nogueira: “Há caminhos mais importantes para se combater o machismo”.