Andrew Salomon e a constelação familiar


Por José Carlos Teixeira Giorgis, desembargador aposentado do TJRS e diretor do Memorial Judiciário (RS)

Andrew Salomon está entre nós. Há quase vinte anos publicou um dos livros mais significativos sobre a depressão (“O Demônio do Meio-Dia”) onde, com graça e talento, narra sua experiência, uma jornada cândida, fascinante e exaustiva, como ali a define.

A depressão é a imperfeição do amor, diz ele, pois para se amar a criatura tem que ser capaz de se desesperar ante as perdas e a doença é o mecanismo destes desesperos; é um nascimento e uma morte; ao mesmo tempo é uma nova presença e o total desaparecimento.

Salomon tentara diversas terapias de grupo, todavia a que lhe pareceu mais sutil e orientadora baseou-se no trabalho de Bert Hellinger, um ex-sacerdote que foi missionário entre os zulus e que deles trouxe o seu método: a constelação familiar.

Hoje também usada para a solução de problemas nas relações familiares na cena judiciária, consiste em buscar no passado, através de um psicodrama, problemas e dificuldades que se manifestaram em gerações anteriores (suicídio, morte, alcoolismo, abuso, incesto, doenças) que podem haver repercutido no trauma atual, sem que o agente dele soubesse.

A pessoa vê representada a existência passada, como forma de trazê-la à consciência. Escolhe-se entre o público quem represente o pai, a mãe, a irmã, o avô, pessoas totalmente desconhecidas que, com o cliente, vão prospectando o drama passado, chegando a ocorrer reações nos atores, como se “sentissem” as dores do pretérito.

Salomon, isso em 1998, participou de um tratamento intensivo com Reinhard Lier, discípulo de Hellinger, com algum ceticismo transformado em respeito durante transcurso do processo. Um grupo de 20 pessoas, conta ele, reuniu-se e estabeleceu laços de confiança através de alguns exercícios. Pede-se a cada um que construa a narrativa do evento mais doloroso de sua vida, o que é compartilhado, escolhendo-se pessoas do grupo para representar figuras da narrativa. Segue-se uma espécie de dança coreografada, colocando-se as pessoas umas frente às outras, movendo-se o sujeito em torno delas, enquanto reconta sua história.

Salomon escolheu a morte de sua mãe como ponto de origem de sua depressão. As figuras conversam entre si. O sujeito se impregna, como se falasse com a mãe. No final adquire uma espécie de calma, o que não resolveu o problema do escritor, mas lhe trouxe uma espécie de paz e compreensão para enfrentá-la.