Testamento mundano


Há menos de duas semanas, faleceu um cidadão gaúcho septuagenário. Até março fora ativo em sua profissão, na área da saúde. Viúvo, deixou o filho único como herdeiro. O cidadão favoreceu também sua namorada e o único neto com testamento detalhando sobre a parte disponível.

O documento particular foi escrito pelo próprio testador, diante de três testemunhas que também assinaram. Nestas circunstâncias, o ato não exige o reconhecimento de autoridade pública, nem o registro em cartório.

Detalhe curioso é que o testador - que previamente já expressara aos parentes mais próximos a vontade de ser cremado - fez constar uma disposição de despedida: “Peço que a urna com as minhas cinzas seja levada a uma acolhedora casa de prazeres, em que a rotina seja a boa companhia de mulheres bonitas. E que em tal ambiente a urna seja aberta, e as cinzas ali lançadas”.

Os desejados passos seguintes ainda não foram seguidos.

Primeiro, porque as cinzas ainda não foram liberadas pelo crematório - há uma rotina temporal a cumprir.

Segundo, porque as restrições pandêmicas não permitem tais aproximações.

Terceiro, porque a dona de um bordel, consultada, sorriu; mas se opôs tenazmente. “Vai dar mau agouro” - disse.

Quarto, porque - revendo a situação em todas as circunstâncias - os familiares não parecem dispostos a atender a original disposição de última vontade do provecto cidadão.

Um parente propôs que todos levem a urna a Capão da Canoa, ali lançando as cinzas ao mar, remetendo a uma sensação de liberdade. “É como - diante da ausência de limites que o mar proporciona - se estivéssemos liberando o falecido para seguir seu caminho” - sustenta.

Daí porque a espirituosa imagem acima - a chegada da urna, pelas mãos do neto,  com as cinzas num ambiente mundano - criada pelo ilustrador Gerson Kauer, fica servindo apenas como mera conjetura.

Pelo menos por enquanto.