Os caros prazeres nova-iorquinos


Descasado, o empresário cinquentão fixava os olhos na jovem e argentária gerente - sempre ávida na venda casada de seguros - da agência bancária. Certa manhã de agosto, o homem comparou, com ela, o inverno que atormentava Porto Alegre e o céu aberto de New York. Então propôs, objetivo:

- Estou ansioso por voltar a Manhattan para curtir, bem acompanhado, amenas caminhadas no Central Park, olhar vitrines na 5ª Avenida, escutar bom jazz, etc.

Os dois evoluíram nas conversas nos dias seguintes. Uma segunda-feira mais, e o empresário exibiu duas passagens aéreas, em classe executiva - e assim a dupla agendou a viagem.

A gerente conseguiu férias de oito dias e os dois partiram. Na chegada ao hotel nova-iorquino, o cidadão empalideceu e fez cara de espanto. Deu-se conta de que tinha só US$ 2.500 no bolso em espécie, percebendo que esquecera seus cartões de crédito em Porto Alegre. E... pedir o envio de novos Visa e Master para New York demandaria uma semana - justo o período da viagem.

A gerente bancária foi solidária:

- Minha conta bancária não se compara com a tua, tenho apenas dois cartões, mas pago tudo aqui com eles, e na volta tu me reembolsas.

Amém!

A semana foi maravilhosa, jazz no Birdland, música gospel no Harlem, festiva evocação a Frank Sinatra no fim-de-tarde quente na Broadway. Quase tudo pago com os dois cartões da gerente – o empresário torrou os seus US$ 2.500 em táxis, alguns ingressos, flores e diversas perfumarias na Duane Reade.

Durante o voo de retorno - ao debater os “planos futuros da relação” - o casal se desentendeu. Já em Porto Alegre, tocou só a ela, nos vencimentos, o pagamento de exatos US$ 5.889 de hospedagem, refeições, espetáculos etc., debitados nos dois cartões. O empresário não se coçou financeiramente.

Dois meses depois, a desavença desbordou em ação judicial de cobrança, da gerente contra o fugaz parceiro, buscando o ressarcimento, de 18.884 reais. A contestação foi vigorosa. E a sentença de improcedência da cobrança foi mantida pelo acórdão.

Uma frase do julgado recursal foi cirúrgica: “À falta de documentos que demonstrem qualquer outro ajuste, é de concluir que a viagem foi uma comunhão de interesses, benesses, descanso, férias e outros prazeres da vida, com despesas rateadas aproximadamente entre os dois parceiros. Outra solução jurídica não há: cada uma das partes terminará, mesmo, arcando com o que já desembolsou”.

O revisor ainda deixou um consolo: “Lamento que a autora tenha que arcar sozinha com a sucumbência, carregando-lhe por inteiro a obrigação da honorária que, presentes as peculiaridades do caso, reduzo para 5% sobre o valor da causa”.

E transitou em julgado.

“That´s life” - como cantou Sinatra.