O pedido de desculpas do deputado: crime e castigo?


PONTO UM:

Nos últimos dias, o vídeo publicado pelo deputado federal Daniel Silveira investindo contra o STF, contra as pessoas de seus ministros e seus familiares e - pior que tudo - contra a democracia, incitando um novo AI-5 (curiosamente, ato da ditadura que decretou o fechamento do Congresso), como solução para o Brasil, e as inevitáveis consequências com sua prisão por conta de possível cometimento de crime contra a segurança nacional, ganharam as páginas de todos os jornais e destaque em todas as mídias, inclusive no WhatsApp.

Mantida à unanimidade pelo STF a prisão decretada monocraticamente pelo ministro Alexandre de Moraes, foi autorizada em sessão de sexta-feira passada, pela Câmara dos Deputados (364 sim x 130 são x 3 abstenções). E foi nessa última sessão que o deputado Daniel Silveira faz uma declaração pedindo desculpas a todos os brasileiros, pelo vídeo que está virilizando nas redes digitais.

Em apertada síntese, disse que reviu o seu próprio vídeo três vezes e concluiu que havia se excedido. Ora, ora, teremos aqui uma versão de crime e castigo redesenhada como crime e pedido de desculpas?

 

PONTO DOIS:

Impõe-se antes de mais nada um pedido de desculpas desta colunista a Dostoiévski, porque certamente este episódio que envergonha o Brasil e a Câmara dos Deputados, que representa a Casa do Povo, em nada pode ser equiparado à grandeza da obra (“Crime e Castigo”) que chegou a ser considerada por Thomas Mann o maior romance policial de todos os tempos, com a exploração de tema muito polêmico: o homicídio ideológico.

Mas a obra literária faz pensar. Este pedido de desculpas é suficientemente satisfatório para purgar o crime? E não estou falando juridicamente, mas sim socialmente, politicamente.

No romance, o personagem Raskolnikow é tocado pela bondade de Sonia, que acredita tê-lo redimido. Mas ser redimido não é o mesmo que se redimir. No vídeo, o deputado pede desculpas a todos os brasileiros. Ok, os brasileiros foram sim ofendidos com suas palavras. Mas, e as outras ofensas? Dirigidas não só às pessoas dos ministros do Supremo, mas também a seus familiares? E as ofensas dirigidas à instituição do Supremo que lado a lado do Legislativo e do Executivo são as bases da democracia brasileira?

Ora, se as ofensas foram dirigidas a destinatários nominados, também as desculpas – sinceras ou não, isso é outro assunto – deveriam sê-lo. Sob pena de não haver remissão.