Judas e o demônio no fórum trabalhista


Tarde cinzenta em Porto Alegre, sentado na sala de audiências, o juiz segue a pauta. É feito o pregão: Antônio Marques reclamante; e uma igreja evangélica com matriz no Brasil e filiais espalhadas pelo mundo, como reclamada.

A pretensão é de vínculo de emprego, sob a alegação de trabalhar como obreiro, a quem eram destinadas a tarefas secundárias – sendo, após, promovido pastor.

O preposto reconhece que o obreiro organiza filas, porta o microfone sem fio colhendo depoimentos dos crentes nos cultos e, principalmente, recolhe as contribuições financeiras. Elas eram modestas, mas aplicável o dito popular: “É de grão em grão que a galinha enche o papo”.

As tarefas eram determinadas e fiscalizadas pelos pastores da sede, mediante o pagamento de um valor fixo mensal ao trabalhador considerado prestador de serviços autônomo.

O juiz pergunta à primeira testemunha da igreja: “Quem designou o Senhor Antônio como pastor?

O juiz, reconhecidamente ateu, em situações como essa, lembrava do que dizia a sua mãe para as amigas: “Ele é ateu, mas tem um bom coração.”

- Ele foi escolhido pelo espírito santo... - responde a primeira testemunha.

Ante a afirmação o juiz passa a mão no rosto, com os olhos fechados, e dá o tom:

- Minha senhora, eu respeito a sua fé, mas o espírito santo e outras alegorias que fiquem da porta para fora.

A advogada da igreja, uma jovem senhora de uma beleza e elegância admiráveis, baixa os olhos e começa a balbuciar. Perguntada se queria que fosse lavrado um protesto antipreclusivo, responde:

- Estou orando, provocada pelas circunstâncias.

Era possível prever o rumo da decisão.

Em razões finais a advogada abre a sua bolsa Louis Vuitton, daquelas expostas em um pedestal na vitrine na Maison Champs-Elisées em Paris, vendidas por aproximadamente 15 mil euros, retirando uma bíblia finamente encadernada em couro com gravações em dourado.

A primeira longa citação é referente à traição de Judas e, por certo, endereçada ao reclamante. A segunda citação, também longa, é colhida em um livro com a foto na capa do abençoado e riquíssimo dono da organização. Falava do demônio, designado na transcrição como “cão-tinhoso, capiroto, bicho-preto, capeta, peçonhento, canhoto, rabudo”. Etecetera...

Finda a preleção religiosa, o juiz encerra a ata e antes de deixar a mesa pergunta à advogada:

- Deus é bom ou justo?

Ela de imediato afirma que “Deus detém as duas características”.

Segue o juiz:

- Doutora é impossível ser a um só tempo bom e justo. O bom não pratica ou deseja o mal – não castiga, não pune – já o justo julga avalia, castiga, pune ou gratifica.

E logo o magistrado arremata com uma frase instigante:

- A sentença será publicada dentro de duas semanas. E como devo ser justo não haverá empate na decisão...