´Bücherverbrennung´ - Espaço Vital
Bernadete Kurtz

´Bücherverbrennung´

Reprodução das redes sociais
´Bücherverbrennung´

Segundo o Google Tradutor, esta palavra ´Bücherverbrennung´ - impronunciável para mim - quer dizer “queima de livros“, e ficou tristemente famosa na Alemanha nazista em 1933. Na época, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda e de Esclarecimento do Povo, criou uma iniciativa para alinhar as artes e a cultura alemãs com os objetivos nazistas. O governo desativou tanto as organizações culturais judaicas quanto as de outros grupos acusados de serem “politicamente suspeitos”. Da mesma forma, tiravam de circulação os diferentes. (A propósito, recomendo muito o filme alemão “Nunca deixe de lembrar“).

Na sexta-feira (02) da semana passada foi celebrado o Dia dos Criminalistas. E no Paraná, a data acabou marcada por uma manifestação em frente à Subseção da OAB em Cascavel, no oeste paranaense. É que “advogados de direita” (como eles próprios se identificam) decidiram fazer um ato público “de repúdio aos desmandos do STF e TSE”, conforme consta em convocação para o ato que circulou nas redes sociais.

Tal ação teve grande repercussão pela forma como os advogados protestaram:

promovendo uma queima de livros.

Ainda naquela mesma noite, a OAB de Cascavel divulgou uma nota em suas redes sociais. Destacou que a iniciativa “não foi oficial” (...), “foi alheia à sua programação”, que o ato foi realizado “na parte externa da estrutura da OAB, portanto, em ambiente público” e que “quaisquer desdobramentos futuros sobre a ação são inteiramente de responsabilidade de seus idealizadores ou participantes”.

Triste e lamentável ato praticado por advogados, queimando livros, repetindo as cenas dos incendiários nazistas em 1933. E triste e lamentável a posição da OAB de Cascavel, que nenhuma censura emitiu em sua nota. Fez apenas um dar de ombros...

Nunca imaginei que veria uma cena deste quilate: uma advogada tentando acender desajeitadamente um isqueiro, para o ato inicial da queima de livros, em protesto contra decisões do STF e TSE.

Defenderei de forma intransigente o direito daqueles advogados e de tantos quantos desejarem protestar contra decisões do STF e TSE, sou uma democrata e entendo que no estado democrático de direito, deve ser respeitada a liberdade de opinião e de expressão.

Mas acredito, firmemente, que os direito de opinião e de livre manifestação não poderão jamais ser confundidos com cometimento de crimes, com ameaças de agressões contra pessoas e instituições - que muitas vezes falham, mas que ainda são os pilares do estado democrático de direito.

A queima de livros numa manifestação de protesto contra os tribunais superiores, demonstra qual o modelo perseguido por aqueles advogados, imitando sem nenhum pudor atos praticados pelos nazistas em 1933. Postular a volta de um regime militar, implorar de joelhos na frente de soldadinhos, por intervenção militar, atitudes deploráveis que viraram rotinas, não podem ser levadas a título de piada...

Tanto a queima de livros, como o clamor pelo retorno à ditadura, o clamor pela volta da intervenção militar, denotam claramente a intenção nazifascista de destruir o estado democrático de direito. Este é, justamente, o que garante o exercício das liberdades individuais, inclusive de livre expressão e de livre manifestação.

Não sei que livros os advogados criminalistas queimaram, no seu protesto, mas sei que os nazistas incineraram livros de Bertolt Brecht, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Erich Maria Remarque, entre outros.

Gostaria muito de uma volta ao tempo, e ver como seriam tratados “estes patriotas“ queimadores de livros e que entoam louvores ao regime militar, se fizessem qualquer tipo de protesto em frente a um quartel na década de 70 ...

Não tenhamos dúvidas: quem queima livros, queima pessoas... é um passo, pois barbárie é barbárie !

Acorda OAB de Cascavel, enquanto é tempo!