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Edição de sexta-feira , 14 de dezembro de 2018.
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Um fenômeno produzido pela raça humana



Arte de Camila Adamoli sobre imagem TVE Brasil

Imagem da Matéria

Sentado na cadeira de engraxate que frequento na Praça da Alfândega - onde no passado conheci o Bagé, engraxate que se tornou vereador de Porto Alegre - à minha frente, em um banco, estava um senhor. Ele aparentava ter mais de 85 anos, revelando um olhar perdido em relação ao mundo que freneticamente nos rodeava.

Quieto, de boné, pernas cruzadas, quase uma estátua de bronze, chamou-lhe a atenção a observação do engraxate: “Seu Juarez, faz uma semana que estamos no horário de verão e o seu relógio ainda está no horário velho”.

Lentamente ele fixou os olhos no relógio, pensou e sabiamente sentenciou: “E que diferença faz para mim?”

Levei dias refletindo acerca da cena do cotidiano e da profundidade do breve diálogo.

Bem, corro o risco de não ser compreendido ou, o que é pior, não ter noção do passar do tempo e da relativização importância daqueles que considero gênios. Se assim for, será parecido com aquilo que presenciei em Guayaquil, quando o inigualável Manga foi levado ao refeitório dos atletas no hotel e anunciado com toda ênfase e emoção pelo Gelson Pires: “Aqui está um dos maiores jogadores da história do Internacional, Manguita fenômeno”.

Alguns, apenas desviaram os olhos do prato, olhando muito discretamente. A impressão e certeza foi de aquela garotada com idade média de vinte e poucos anos, jamais ouvira falar em Manga ou Manguita. Diante deles estava apenas um velho.

Assim, pouco importa se o meu relógio ainda está atrasado, mas em nome da sanidade, da estética e dos valores da humanidade, em total paradoxo com os tais MCs sei lá do quê, ouso reverenciar um dos maiores talentos da humanidade.

Com certeza, quando o mundo perder Pelé, os críticos de arte escreverão sobre ele.

Tive o privilégio de comparecer a uma de suas apresentações em Porto Alegre, acho que em 2006. Ele foi impecável, tudo nele denunciava a sua elevada idade, mas, ao mesmo tempo, foi exuberante em talento, elegância e altivez. Carrego comigo a frustração de jamais ter assistido uma apresentação de Frank Sinatra ou dos Beatles.

Aznavour era considerado o Frank Sinatra francês, o que considero injusto, eis que cada um foi fruto de cultura e estilos diferentes. Seria, no caso do futebol, comparar Pelé e Garrincha, sem perceber o quanto as circunstâncias da vida de um e de outro foram diversas.

É irrefutável que, de quando em quando, a vida nos brinda com grandezas difíceis de dimensionar.

Aznavour faleceu esta semana, aos 94 anos. Não raramente a natureza tem permitido para a nossa alegria, que os gênios sejam longevos. Além de compositor e intérprete, ele foi um grande ator. Atuou em mais de 60 filmes, compôs mais de 850 canções, sendo 150 em inglês, 100 em italiano, 70 em espanhol e 50 em alemão.

Atingiu a espetacular marca de 200 milhões de discos vendidos em todo mundo. Iniciou a sua carreira aos 9 anos de idade e alcançou o sucesso com um impulso da diva Edith Piaf. Em 1988, Aznavour foi eleito o artista do século pela CNM.

As canções de Aznavour foram cantadas por Fred Astaire, Bing Crosby, Ray Charles, Liza Minelli, Elvis Presley e tantos outros.

Inegavelmente um craque!

Não sei se ele gostava de futebol, não sei se ele conhecia os nossos clubes, mas me atrevo a dizer que ele era colorado, porque sendo um fenômeno produzido pela raça humana, ele é de todos nós, colorados ou não.

Quando lembro dos MCs, dos funkeiros, dos pagodeiros, dos ´pablos´ sei lá do que, me vem à mente o nosso inesquecível poeta Mário Quintana: “ELES, PASSARÃO... EU (AZNAVOUR), PASSARINHO!


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