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Edição de sexta-feira , 21 de dezembro de 2018.

A primeira vez da juíza



Charge de Gerson Kauer

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Era uma ação de obrigação de fazer decorrente de vício oculto, ajuizada pela empresa proprietária de um motel, contra a construtora do prédio hoteleiro. Em que pese ter sido contratado o isolamento acústico, a insuficiência e/ou a deficiência do material empregado tinham resultado na percepção ambiental da propagação dos sussurros típicos ao prazer. Estes alcançavam os apartamentos contíguos e, às vezes, até os prédios vizinhos.

Na audiência de tentativa de conciliação, sem acordo entre as partes, o advogado da demandante ponderou com firmeza:

- Doutora, é absolutamente necessária a inspeção judicial, com a presença de Vossa Excelência no local.

A magistrada enrubesceu e mostrou indecisão. O profissional da advocacia insistiu:

- A inspeção será decisiva. E a senhora poderá, com a prestação jurisdicional ´in loco´, demonstrar que não é uma magistrada de gabinete, mas uma juíza inovadora, rente aos fatos da vida...

Concordando afinal, a magistrada iniciante na carreira – 40 anos, solteira – ditou ao escrevente:

- Inspeção judicial no dia 9 de agosto de 2018, às 10 h. O autor deverá providenciar para que, na ocasião, pelo menos uma das suítes a serem periciadas esteja limpa, arrumada e evidentemente desocupada.

E dirigindo-se aos advogados e às partes, ponderou:

- Espero que os senhores colaborem comigo nesta situação singular, até porque será a minha primeira vez... neste tipo de inspeção.

No dia certo, os atores da cena forense estavam presentes. A magistrada chegou dirigindo seu próprio automóvel. O escrivão, o digitador e o estagiário foram num veículo oficial. Numa das suítes temáticas, a juíza logo examinou os defeitos de acabamento, a má vedação das janelas e a vibração do ar condicionado. Faltava aferir o mais difícil: a deficiente vedação sonora. Eis que, de repente – tal como já cantou Maysa – o inesperado fez uma surpresa...

Da suíte ao lado provieram irreprodutíveis gritos e quentes palavras, de uma mulher em transe por estar, presumivelmente, no pique orgástico do ato sexual. Também era possível escutar, em decibéis um tanto menores, a reação masculina de aprovação à parceira.

Estava feita a prova de que o isolamento acústico era precário, o que encaminhava a uma sentença de procedência da ação. Na audiência de encerramento da instrução, duas semanas depois, a empreiteira acordou pagar 80% da pretensão financeira do motel. Celebrado o acordo, a juíza comentou sorridente:

- Foi a minha primeira e última vez no motel, como juíza...

Os circunstantes da solenidade entraram no tom.

Dois ou três dias depois, ficou-se sabendo, via “rádio-corredor” da OAB local, que – independentemente das efetivas condições do precário isolamento acústico do prédio - o dono do motel contratara, especialmente, um casal para, na hora certa, na suíte vizinha realizar o programado desempenho de êxtase sonora.


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