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Porto Alegre (RS), terça-feira, 26 de maio de 2020.

Casa de marimbondos



Gerson Kauer

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Sobre a mesa do juiz estão os autos de uma carta precatória para a avaliação de uma colheitadeira, penhorada três anos antes, pelo banco que concedera o financiamento. O magistrado se surpreende com a certidão lavrada pelo oficial de justiça-avaliador.

Atenção para os detalhes: “Certi?co que estive na propriedade do devedor, constatando tratar-se de máquina de cor original vermelha, mas bastante gasta e já parecendo bege. Tem capim alto ao redor, mas dá para notar que está sem as rodas. O tubo dianteiro que corta a lavoura está enferrujado. Na traseira, a parte superior tem um grande amassado decorrente da queda de um galho de grande árvore atingida por um raio. Do lado direito, que é por onde o operador entra, não dá para notar se tem escada de acesso à cabine, mas percebi que o banco está roído”.

O oficial não dá qualquer detalhe financeiro útil ao valor da alienação judicial.

O juiz chama o servidor, orientando-o a que “complemente com dados de real interesse a avaliação atual do bem, não perdendo tempo com minúcias despiciendas”.

Dois dias depois, o oficial devolve os autos ao gabinete, com outra minuciosa certidão.

De novo, atenção para os detalhes: “Deixo de estimar presumível valor para a colheitadeira, que é ano 1985, porque não pude me aproximar da mesma, pois na parte interna do teto da cabine tem uma casa de marimbondos do tamanho de uma caçamba de pampa. Os insetos, só com o balançar do capim perto da máquina, ?cam alvoroçados, tendo este servidor medo de levar múltiplas ferroadas”.

E um arremate certificado: “Em respeito ao MM. Juízo, complemento que cheguei a discutir com o devedor da possibilidade de queimarmos a casa dos insetos, mas ele resistiu e me convenceu que, como depositário, poderia se complicar, pelo risco do fogo dani?car o bem. Dou fé.”

O magistrado determina a devolução da carta precatória à origem, “com as escusas deste Juízo, face à impossibilidade de uma precisa avaliação, porque tal máquina, mesmo se oferecida a alguém, certamente não encontraria interessado com coragem de carregá-la dali”.

A “rádio-corredor” da OAB local irradia, no dia seguinte, irônica informação: “Os marimbondos tomaram posse da máquina e preparam-se para ajuizar ação de usucapião”. A advogada será a Doutora Tartaruga Jurisdicional.


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