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Edição de terça-feira , 11 de dezembro de 2018.

Perfume de segunda categoria



Gerson Kauer

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Trata-se de uma audiência de ação penal relativa a roubo à mão armada ocorrido em uma loja de perfumes, com prisão em flagrante, logo depois, do assaltante em fuga. O magistrado – homem elegante, traje bem cortado, ouve, como vítima, a dona do estabelecimento. Aos 25 de idade, ela exala fragrância oposta aos melhores perfumes franceses.

Aos soluços – mesmo passados dois meses desde a investida criminosa – a vítima parece ainda estar em choque existencial. No momento em que o magistrado pergunta sobre o possível reconhecimento visual do acusado, a depoente quase entra em síncope.

A escrevente alcança-lhe um copo d´água, o promotor oferece balas de hortelã, a vítima não aceita participar do reconhecimento – no que, aliás, está certíssima. A ela é sugerido então que, para evitar justamente o encontro visual com o facínora, aguarde no contíguo gabinete do juiz.

Este, na sequência, ouve as testemunhas, interroga o réu e termina a solenidade. Como o celular do magistrado tilinta, ele pede desculpas e ausenta-se do recinto para atender a ligação, solicitando que todos aguardem “um minuto”.

Quando se prepara para retornar à sala de audiências, o magistrado é surpreendido pela vítima:

- Doutor, o senhor tem compromisso para hoje à noite?

O juiz polidamente responde “já ser compromissado diuturnamente há muitos anos”. A mulher sorri insinuante e diz ter gostado “do que acabei de ouvir, mas lhe asseguro que também não estou a fim de compromissos sérios”.

O magistrado capta o recado e objetivamente sugere que seria melhor, para ela, “buscar alguém mais novo”. Intimamente – sem explícitas palavras – ele dá a entender que, com 45 de idade, não tem mais disposição física para as maratonas sexuais que a jovem mulher quixotescamente parece almejar.

O juiz volta à sala de audiências, senta-se então para presidir os derradeiros momentos da audiência, e – após um suspiro – evoca Vinicius de Moraes, o poeta das muitas mulheres: “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”.

Os demais presentes entreolham-se sem entender o porquê da frase, aparentemente tão fora do contexto jurisdicional.

Ao que interessa: duas semanas depois o assaltante é condenado a seis anos de prisão. E a loja de perfumes continua ativa.


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