Ir para o conteúdo principal

Edição de sexta-feira , 14 de dezembro de 2018.

Tropeços de duas nobres profissões



Arte de Camila Adamoli

Imagem da Matéria

Por Antonio Silvestri, advogado (OAB/RS nº 17.672)
asilvestri@terra.com.br

É uma ação ordinária. Dois autores. Audiência para depoimentos dos réus. São três. Todos comparecem. Dois saem enquanto o terceiro será ouvido. O magistrado passa a palavra ao procurador dos autores. Começam as perguntas, que vão sendo indeferidas.

A intenção é formular umas doze ou quinze. Mas na oitava, já são seis indeferidas com a moldura de uma boa dose de irritação do magistrado.

O argumento da excelência: “Doutor, o senhor não pode fazer perguntas fora do contexto!”

Incomodado, o advogado suspende as perguntas ao réu que depõe e desiste de ouvir os outros. O condutor da solenidade dá de mão nos autos (cinco generosos volumes) e, dirigindo-se ao advogado cujas perguntas indeferira, faz a sua própria indagação: “Do que mesmo se trata esta ação, doutor?”.

Agora, pergunto eu: Qual o “contexto” conhecido do magistrado? Ele desconhecia a espécie de ação...

Já me deparei com decisões portando frases do tipo “houveram falhas (...) foi praticado vários atos (...)foi realizado diversas diligências”. E até uma indagação em audiência: “O senhor podes fazer isso?”.

Por um lado, preocupa porque já se aceita a bagunça sem resistência. Por outro, uma decisão ou uma sentença dizendo que “houveram erros” ou que “foi realizado várias diligências”, nos desencanta, pois juiz aprovado em concurso, cuja primeira prova é a de português, não comete esse tipo de erro.

Acima estava me referindo à magistratura. Mas já vi colegas no foro de chinelo de dedo, bermuda e camisa desabotoada, estourando bola de chiclete.

Se calça e camisa sociais não se harmonizam com praia, bermuda e chinelo não combinam com foro. Não se trata de questão de “viver de aparências”. Trata-se de uma questão de respeito.

Meu grande mestre da época de estágio já previa um tempo em que juízes e advogados escreveriam “sim” com “ç”, “y”, “n” e ninguém mais se surpreenderia.

Diante dessa realidade, questiono-me se merece tratamento de doutor quem escreve “houveram falhas”, “foi feito várias diligências”, e perguntou se “o senhor podes fazer isso?”

Será que já não se domina a primária lição de conjugar um verbo?

Não é minha intenção criticar. Nem à magistratura, nem à minha classe (advocacia). Quero um chamado à reflexão. Tenho o mais profundo respeito por juízes e desembargadores. A maioria é sábia, competente e não diz “houveram falhas”.

Eminentes magistrados e ilustres colegas, nossas atividades são assim: nobres, dignas, honrosas, sublimes! Não deixemos essas características escorregarem, deslizarem e se perderem nos desfiladeiros dos tempos!

Lembremos de Dom Pedro I, na Lei de 11 de agosto de 1827, pela qual conferiu o grau de Doutor aos “formados nos Cursos de Sciencias Juridicas e Sociaes, porém só àquelles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos e com approvação da Lingua Franceza, Grammatica Latina, Rhetorica, Philosophia Racional e Moral, e Geometria”.

Leia nesta mesma edição do Espaço Vital

· A culpa foi do estagiário - As repercussões na “rádio-corredor” da OAB-RS sobre Tropeços de Duas Nobres Profissões


Comentários

David José Soares Fares - Advogado 16.11.18 | 16:53:16
"Não é minha intenção criticar. Nem [à] magistratura, nem [à] minha classe (advocacia)."

Já que estamos falando de Língua Portuguesa...

Quem critica, critica alguém ou alguma coisa. O verbo é, pois, transitivo direito. Gostaria de saber a razão do emprego das crases na sentença em destaque. Pode ser que eu esteja até enganado, mas naqueles [a] jamais existirá crase!
Eliakim Seffrin Do Carmo - Advogado 16.11.18 | 14:15:14
Concordo plenamente com o colega articulista no que toca às derrapadas na Língua Portuguesa. Em que pese ser complexa a gramática da nossa língua, deveríamos tê-la na ponta da língua!

Todavia, discordo veementemente da questão relativa aos trajes. Acredito piamente que o respeito à profissão, aos colegas, às partes e aos magistrados deve ser representado pelo cumprimento integral do nosso digno e forte Juramento.

Um Operador do Direito deve ser respeitado pelo o que faz e como o faz.
Edson Martins Areias - Advogado 16.11.18 | 11:29:32

Nobre colega, temo que seu Mestre tenha razão. De ser reconhecido que o Exame de Ordem é um instrumento que, embora possa ser aperfeiçoado, estabelece um nível mínimo o qual vinha sendo degradado pelas faculdades padrão "PP" pagou passou. Mas a " popularização" da linguagem forense causa grandes estragos, tão perniciosos quanto à falta de raciocínio lógico... Ainda bem que a História é cíclica e , queira Deus, possamos retomar o ciclo ascendente...

Jorge Felipe Eckert - Aposentado (ex-empresário, Ex-oficial Da Brigada Militar E Bacharel Em Direito) 16.11.18 | 10:57:41

O desvirtuamento do emprego da Língua Portuguesa teve início com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961, cujos resultados indesejáveis foram ampliados sucessivamente com novas diretrizes de ensino e com as danosas reformas ortográficas. A exclusão do ensino do Latim dos currículos escolares, operada em 1961, foi o golpe de misericórdia nos conhecimentos de gramática e ortografia. Vamos de vento em popa a caminho da barbárie linguística. "Nóis bamo, nóis fumo e não vortemo..."

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Foto de Ueslei Machado, reprodução da revista IstoÉ

Operação Salva Lula e os criminosos do colarinho branco

 

Operação Salva Lula e os criminosos do colarinho branco

Revista IstoÉ, em interessante artigo de seu diretor editorial Carlos José Marques, revela que já foram 78 recursos apenas no caso do tríplex. Texto critica o STF, falando em “pornografia legal”. Analisa que “o ministro Ricardo Lewandowski esforça-se para que o presidiário petista conceda entrevista em sua defesa alardeando injustiças imaginárias”. E arremata que, no caso do ex-presidente e de outros criminosos de quilate no âmbito do colarinho branco, “trata-se de uma estranha patologia nacional: bater à porta de meia dúzia de notáveis autoridades da Lei para conseguir benesses fora do habitual”.

Um alerta para superar tartarugas jurisdicionais diárias

“Chamo a atenção dos colegas sobre um pouco usado dispositivo do NCPC: ´É facultado promover a intimação do advogado da outra parte por meio do correio, juntando aos autos, a seguir, cópia do ofício de intimação e do aviso de recebimento´”. Artigo do advogado Juvenal Ballista Kleinowski (OAB-RS nº 102.262)

Von Jhering no Brasil (1880-1920)

“Herrman von Jhering, filho mais velho do grande Rudolf, viveu no Brasil e, mais particularmente, no RS durante grande parte da sua vida. vale lembrar esse alemão, cuja contribuição para a formação do Estado é deveras importante”. Artigo de Adroaldo Furtado Fabrício, advogado, jurista, ex-presidente do TJRS

A favor da vida

“Sou a favor da vida. Contra a pena de morte e a guerra. A favor de políticas públicas que favoreçam o parto feliz e a maternidade protegida. Mas uma vez absolvi uma mocinha, denunciada por aborto”. Artigo de João Batista Herkenhoff, juiz de direito aposentado.