Ir para o conteúdo principal

Edição de terça-feira , 16 de abril de 2019.

O gaúcho caloteiro



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Em Mato Grosso do Sul, a 60km da capital, Campo Grande, há a comarca de Bandeirantes. A cidade recebe pessoas vindas de diversos rincões brasileiros, dentre elas os sulistas, que ascenderam à região. É nessa comarca que surge o caso envolvendo o o?cial de justiça Antônio João, um servidor dedicado e sério – e um gaúcho notório pela impontualidade em suas obrigações, já conhecido no meio forense como o Senhor Caloteiro.

O juiz determina que uma penhora seja efetivada pelo oficial Antonio. Este, com temor à sua integridade física, leva força policial consigo. Ao chegar à fazenda do devedor, bate palmas, grita, buzina, mas nada... Enfezado, por ?car muito tempo debaixo do sol, à espera do fazendeiro, o servidor começa a gritar, na certeza de que havia alguém na propriedade.

Acode então o ?lho do Senhor Caloteiro, sendo travado o seguinte diálogo:

- Mas bah, quem procuras, tchê?

- Procuro por seu pai, o Senhor Caloteiro.

- O pai não está. Viajou para o Rio Grande e não tem data para voltar.

Desconfiado, o meirinho pede permissão para, com os policiais, dar uma olhada na área. Ninguém é encontrado.

Quando Antônio João e os milicianos estão indo embora, veem, no meio do mato, uma moita se mexer intensamente. De pronto, os policiais apontam as armas na direção daquilo que parece ser a investida de um animal bravio.

Na sequência, o ?lho do Senhor Caloteiro, assustado com a reação policial e as possíveis consequências, passa à frente do grupo e grita:

- Mas bah, pai, se és tu que já vieste lá do Sul, aparece!

Então, sai da moita o Senhor Caloteiro, acometido de coceira por todo o corpo. Ele se escondera atrás de uma plantação de urtiga, folhagem que causa irritação na pele, em razão da presença de ácido fórmico.

Após assinar o mandado e ouvir um sermão do meirinho, o devedor é liberado para tratar de sua incessante coceira e, quiçá, recuperar-se da “longa viagem” entre o Rio Grande do Sul e Bandeirantes.

Uma hora depois, o o?cial de justiça chega ao foro, onde certifica, em miúdos detalhes, a história além de pessoalmente expressar ao juiz a profunda irresignação, acusando a família do Senhor Caloteiro de uma tentativa de enganá-lo.

Curado da comichão, um dia depois o gaúcho Senhor Caloteiro pede a conta e adimple a obrigação.

E até hoje, quando percebe que alguém quer ludibriá-lo, o juiz usa – no círculo dos operadores forenses - a expressão marcante relatada na certidão do oficial de justiça: “Mas bah, pai, se és tu que já vieste lá do Sul, aparece”.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
(*) Resumido a partir de um conto de autoria do juiz Fernando Moreira Freitas da Silva, publicado em “A Justiça Além dos Autos”, editado pelo Conselho Nacional de Justiça.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser comentar ou esclarecer alguma notícia, disponha deste espaço.
Sua manifestação será veiculada em nossa próxima edição.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

Virem-se e estudem!

 

Virem-se e estudem!

Três moçoilas inteligentes terminaram o segundo grau no Interior e passaram em universidade particular na Capital, só que as respectivas famílias não conseguiriam pagar. Resolutas, as três combinaram que iriam “se virar” para quitar as mensalidades. Abriram então uma casa de diversões para o público masculino adulto. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Charge de Gerson Kauer

Que ´m´!

 

Que ´m´!

O despacho judicial pretendia indeferir uma “MERA” revogação da liminar. Mas por erro de digitação – ou algum atropelo do verificador ortográfico – a palavra terminou ganhando, justo em seu meio, um inoportuno acréscimo da consoante ´d´.  Então virou “m----“.

Charge de Gerson Kauer

Sem estagiário, não tem Judiciário!

 

Sem estagiário, não tem Judiciário!

Um romance forense com nome da advogada afrontada. A empáfia de uma estagiária, o desrespeito às leis e a conclusão conciliadora da escrivã: “Com a carência de pessoal e a falta de concursos, dependemos da estagiariocracia”. 

Charge de Gerson Kauer

   O Doutor Rei da Sinuca

 

O Doutor Rei da Sinuca

A surpresa, em cidade da fronteira gaúcha, quando o advogado - que tinha 99% de sucesso nos encaçapamentos das sete bolas coloridas – rompeu o namoro com a mulher mais ´in-te-res-san-te´ da comarca.

Gerson Kauer

Os dois exagerados

 

Os dois exagerados

Ao realizar a penhora sobre um cavalo (“o mais famoso reprodutor da fazenda”), o oficial de justiça espanta-se com a virilidade do equino, fotografa o animal excitado, e faz uma certidão exageradamente minuciosa. O juiz manda desentranhar a foto e que se risquem 17 palavras do relato oficial feito pelo servidor minucioso.