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Porto Alegre (RS), terça-feira, 1º de dezembro de 2020.
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“E s t a u t a ?!”...



Gazeta do Povo

Imagem da Matéria

O Parcão era novidade, chamando a atenção de todos pela possibilidade de mais uma área de lazer localizada em uma zona muito valorizada da cidade.

Eu, adolescente, estava em um ônibus da Carris, em pé no corredor ao lado do banco onde estavam sentados uma senhora com uma criança no colo e o seu companheiro. Com certeza eram trabalhadores de parcas condições.

Na ocasião testemunhei o seguinte diálogo, travado em voz alta e motivado pelo monumento erguido no Parque Moinhos de Vento, dedicado ao marechal Castelo Branco. Fixando o olhar naquela obra modernista, ela perguntou ela ao marido:

... Bem, o que é isso?”.

Ele, surpreendido pela pergunta, enquadrou a visão na janela do ônibus, franziu a testa, fez uma pausa enigmática e sentenciou: “Ora, não tá vendo, é uma ´estauta´”.

Ela mirou bem o objeto da dúvida, atirou a cabeça para trás e juntamente com uma sonora e debochada gargalhada, retrucou: “Estauta?! ”.

À época dava-se início a um novo padrão para os monumentos. Passaram a ser modernistas, gigantescos e surreais, como é por exemplo aquele dedicado aos Açorianos.

Impactante para uma cidade acostumada com o realismo da estátua do Laçador, do monumento da Praça da Matriz, daquele dedicado a Bento Gonçalves e tantos outros espalhados pelas praças.

Como agora é moda a inauguração de estátuas dedicadas a jogadores de futebol, proponho alguma reflexão acerca do tema estátuas. Deixo claro que sou contra essas homenagens, pois se fossem justas, muitos outros deveriam recebê-las.

Creio que em um determinado momento histórico, as estátuas eram encomendadas e valorizadas a partir da capacidade do artista em reproduzir com maestria e precisão o homenageado. A precisão alcançava a postura que traduzia a personalidade, as mãos, dedos, rosto, cabelos, enfim a pessoa no sentido integral.

Havia, ainda, um pressuposto: o reproduzido na obra artística deveria ser pessoa falecida. Sim, ter consolidado imutavelmente a sua existência, pois a perigosa dinâmica da vida poderia afetar a perene figura.

Durante a existência da União Soviética, os monumentos eram inspirados no realismo socialista. A figura reproduzida tinha o físico otimizada.

Salvo os personagens da Revolução de 1917, Lenin, Trotsky, Stálin e o doutrinador Marx, os monumentos eram, via de regra, dedicados aos trabalhadores, às mulheres, aos soldados e às crianças.

Quanto aos trabalhadores, eram tipos altos, rostos quadrados com feições bem definidas, mãos maiores do que a proporcionalidade exigiria, braços e pernas fortes e, principalmente, olhos fixados no esperançoso amanhã. Esse molde também foi utilizado pelo nazismo e pelos americanos, basta ver os comerciais de então da Coca-Cola.

A teoria socialista que fundamentava o realismo, diz com a necessidade de exaltar o ser humano e não descaracterizá-lo pelos traços imprecisos do modernismo desafiador da imaginação, mas que caricaturiza a pessoa.

O muro caiu e as estátuas encontram-se em depósitos ao ar livre, umas encostadas nas outras. É o risco da efemeridade determinada pelo dinamismo imprevisível da vida.

Por aqui sabemos bem, pois ora estamos na Avenida Castelo Branco e ora na Avenida da Legalidade.

No início da semana houve a inauguração de uma nova estátua por aqui. Ao me deparar com a sua imagem estampada nos jornais, não identifiquei o homenageado. As feições, a cabeleira o porte e a pose não permitiam o reconhecimento. Mais atrapalhado ainda fiquei, quando recebi mensagens com fotos de pessoas que, sem qualquer dúvida, poderiam ser aquela da estátua.

Depois de identificar o homenageado a partir do nome, passei a prestar mais atenção na obra. Sem necessitar descrevê-los, há detalhes cômicos nela. Bem, eles não me dizem respeito, embora nada que se faça seja sem razão. Para tudo há uma razão, mesmo que desconhecida.

Bem, não estabeleço uma disputa entre estátuas, pois considero aquela dedicada ao Capitão Fernandão, também horrorosa.

Essas obras reproduzem figuras em escalas diminutas, desproporcionais e caricaturais.

Mas, a minha grande dúvida é como ocorrerão as negociações contratuais entre o homenageado vivo e perenizado e o seu contratante.

Sugiro, humildemente, que ele negocie as novas condições no pedestal da estátua, pois não haverá espaço para regatear, prática mesquinha incompatível com a grandeza do gesto.


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