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Edição de terça-feira , 20 de agosto de 2019.

Sem estagiário, não tem Judiciário!



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Mais um dia de trabalho, a advogada Bernadete Kurtz (OAB-RS nº 6.937), que é da dita “melhor idade”, faz pensamento positivo em prol de um dia tranquilo e chega às 9h30 ao Foro Central. Claro, não há qualquer cartaz ou placa que diga “Seja bem-vindo(a)”, ou algo assim.

Logo um guarda a ataca com mau humor.

- Não pode entrar! Neste horário só servidores, estagiários e advogados.

- Eu sou advogada.

- Mostre a carteira da OAB.

Documento exibido, bolsa passada na esteira de inspeção, passado o portão eletrônico, a advogada vai a um cartório cível. Na porta o aviso imperativo: “Tire sua senha e aguarde no corredor

A advogada entra direto, e para no balcão.

Ninguém na sua frente. Do outro lado do balcão uma moça bonitinha. Ela veste um top próprio para ginástica, que deixa sua ´barriguinha tanquinho´ totalmente de fora.

O diálogo é objetivo, tipo pingue-pongue.

- Sua senha, doutora – ordena a menina.

- Não tirei, pois além de não ter ninguém esperando, sou uma advogada idosa com direito a atendimento preferencial.

- Aqui, a preferência dos idosos é apenas para as partes. Advogados não têm esse direito.

- Não vamos discutir, não peguei senha e não vou pegar, pois não há ninguém na minha frente. Por favor, quero ver este processo...

A estagiária pega a papeleta da informação com a pontinha dos dedos e questiona:

- A senhora tem procuração nos autos?

- Não! Fui procurada ontem pelo réu nesta ação e preciso examinar o processo para verificar se aceito, ou não, o caso.

- Nada feito, sem procuração é zero acesso.

- O processo tramita em segredo de justiça?

- Aqui não tem nada de segredo. Sem procuração não pode.

- Meu estatuto diz que eu posso, se não houver segredo de justiça ou prazo correndo.

- Que estatuto?

- O da OAB, naturalmente.

- Ah... isso vale lá na OAB, aqui não.

A advogada começa a falar com menor mansidão verbal.

- Quero falar com o escrivão!

A estagiária também levanta a voz, com um ar de superioridade que faria inveja ao ministro Fux.

- Aqui não temos escrivão, mas sim escrivã, ela está ocupada, e os problemas do balcão eu resolvo.

Como o desrespeito já está indo longe demais, a advogada entra pela porta que há no final do balcão e se dirige ao cartório, seguida pela estagiária, já meio histérica, gritando:

- Não pode passar, não pode passar!

Param todos os servidores do cartório para apreciar a cena, e uma senhora levanta-se detrás de uma mesa aos fundos:

- Doutora Bernadete, que bom lhe ver!

Surpresa com a saudação amistosa, a advogada para, e a escrivã se aproxima: ambas são conhecidas de longos tempos.

A estagiária escafede-se. A escrivã apenas sorri, abraça a advogada e diz:

- Não se estresse doutora, esses jovens estagiários são assim mesmo... mas fazer o quê? Com a carência de pessoal e a falta de concursos, dependemos – como diz o Espaço Vital - da estagiariocracia. Mas fique tranquila que eu mesma vou lhe atender.

A advogada examina os autos sentada no cartório, tomando um cafezinho. Está satisfeita com a lhaneza da escrivã, também da “melhor idade”.

Quinze minutos depois, missão cumprida, despedida afetiva, a advogada Bernadete ao sair encontra-se de novo, ´vis a vis´, com a estagiária que, oportunista, provoca com uma alfinetada final:

- Tenha um bom dia, doutora. Mas lembre-se que sem estagiário não tem Judiciário!


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