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Edição de terça-feira , 16 de julho de 2019.

“Riscos iminentes das sentenças e suas injustiças”



Arte EV sobre foto Google Imagens

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Uma curiosa reflexão sobre estigma e “riscos iminentes das sentenças e suas injustiças” foi a escolha de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio - atualmente preso em Bangu 8, na capital carioca - para fechar uma análise sobre um clássico da literatura brasileira: “O Alienista”, de Machado de Assis. A obra foi uma das três lidas pelo político nos quase três meses em que permaneceu preso no Paraná, entre janeiro e abril do ano passado.

O jornal O Globo teve acesso às resenhas dos livros elaboradas por Cabral no período. Hoje, ele está preso em Bangu 8, no Complexo de Gericinó, no Rio.

O Espaço Vital registra que, em junho de 2018, num dos seus depoimentos ao juiz federal Marcelo Bretas, o ex-governador admitiu “não ter sabido me conter diante de tanto poder”. O magistrado então lembrou que os doleiros e delatores Marcelo e Renato Chebar afirmaram que movimentaram em torno de R$ 500 milhões para Cabral.

O ex-governador disse então que “a cifra não está distante da realidade” e que, desse montante, pegou cerca de R$ 20 milhões "para a vida pessoal" entre 2007 e 2016. Foi a primeira vez que o emedebista quantificou o volume total de seus gastos pessoais com o dinheiro que ele afirma ser “sobras de campanhas”.

“Discurso de injustiçado”

No momento em que escreveu o texto sobre a obra de Machado de Assis, o ex-governador ainda mantinha um discurso de que era “inocente” e rebatia as acusações que lhe eram feitas. Em audiência na Justiça, em outubro de 2017, o juiz Marcelo Bretas disse que Cabral fazia o “discurso de injustiçado”, pois o político insistia em dizer que havia “trabalhado para o Rio”.

Agora, a jornalista Caroline Heringer, do jornal carioca, avaliou que “em fevereiro de 2019, aquela postura mudou, e o ex-governador resolveu assumir crimes”.

Na resenha de “O Alienista”, Cabral usou - como gancho para debater a injustiça - a história do personagem principal do livro, Simão Bacamarte. “O fato é que o estigma é uma doença contagiosa e de extremo perigo para qualquer sociedade” – escreveu o ex-governador ao iniciar sua conclusão sobre a obra.

“Da Inquisição até Hitler, a humanidade viveu dramas de estigmas e injustiças”, continua. Cabral fecha a análise dizendo que “vivemos tempos muito estranhos no Brasil e no mundo”, por isso é sempre bom revisitar o “Bruxo do Cosme Velho”, alcunha de Machado.

Quase nota dez

Pelo texto, Sérgio Cabral recebeu a nota 9,5. Os cinco décimos perdidos foram no quesito “estética”, que engloba legibilidade da letra, por exemplo. No “domínio da norma padrão” e “estrutura lógica e qualidade do texto”, ganhou nota máxima. O ex-governador é formado em jornalismo.

Uma resolução do Conselho Nacional de Justiça prevê que os presos diminuam quatro dias de pena a cada livro lido. Para isso, os detentos precisam fazer uma resenha ao término da leitura. Para conseguir a redução, é preciso obter, no mínimo, nota seis. Neste mês de maio, o político conseguiu reduzir 12 dias de sua pena de 198 anos de prisão com as leituras.

No segundo livro escolhido para ocupar o tempo ocioso atrás das grades, Cabral resolveu visitar uma história que versa sobre como o desequilíbrio do líder de Estado acaba levando ao colapso de todo o sistema. O ex-governador debruçou-se sobre “Hamlet”, de William Shakespeare e concluiu que “o autor nos brinda com todos os ingredientes da raça humana na obra”. E, a seguir, enumera-os: “cobiça, inveja, poder, amor, traição e vingança, entre outros”.

Num tom de crítico literário, o ex-governador indica a leitura principalmente para jovens, no intuito de fazê-los aprender os “percalços e dilemas da existência humana”. Cabral cita duas frases clássicas da obra: “Ser ou não ser, eis a questão” e “Há algo de podre no reino da Dinamarca” - e sustenta que tais indagações e afirmações, se lidas ainda na juventude, “darão ao leitor mais solidez psicológica e social”. O ex-governador teve nota dez na resenha.

Opiniões sobre as resenhas

O professor Leandro Karnal, autor do livro “O que aprendi com Hamlet”, analisou o texto de Cabral a pedido do jornal O Globo. Para ele, a resenha transmite a ideia de que a obra foi lida por completo e compreendida pelo ex-governador. Além disso, fez apenas algumas ressalvas a respeito de informações sobre Shakespeare escritas por Cabral e cita pequenos erros de português, como uso da crase antes de palavras masculinas.

Karnal também analisa que a maioria dos “ingredientes da raça humana” citados por Cabral no texto é negativa: “Na leitura do ex-governador, a peça é dominantemente sobre a maldade humana, já que as grandes questões dizem respeito a um sentimento negativo para ele”.

O último livro lido por Cabral no Paraná foi “O Exército de um Homem Só”, de Moacyr Scliar. Na análise, o político se atém a detalhar o enredo da obra e, diferentemente das duas primeiras resenhas, não faz relações com a realidade. No fim, recomenda ainda a leitura e diz que deve ser compartilhada por todas as idades.

A pedido da jornalista Caroline Geringer, o professor de Letras Ricardo Lísias também avaliou as resenhas de Cabral: Tanto no ´Hamlet´ quanto em ´O Alienista´, fica claro o tom amargurado dele, inclusive quase deixando claro que se sente vítima de injustiça, sobretudo quanto ao livro do Machado de Assis.


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