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Edição de quinta-feira , 17 de outubro de 2019.

Políticas de diversidade chegam aos maiores escritórios de advocacia



Alice Vergueiro (Reprodução/O Globo)

Imagem da Matéria

Thais Guilherme e Luiz Felipe Barbosa ainda são exceções nos escritórios de advocacia

Com uma baixa presença de negros em seus escritórios, grandes bancas de advocacia começam a investir em programas de recrutamento para tentar contornar essa lacuna. Uma pesquisa realizada em 2018, com 3.624 profissionais de nove dos maiores escritórios brasileiros, mostrou que só 2% dos advogados declararam ser negros.

O estudo é da ONG Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) e foi feito em parceria com a Aliança Jurídica pela Equidade Racial e Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Em cima dessas informações, O Globo publicou esta semana interessante matéria assinada pelo jornalista Leo Branco. O jornal carioca mantém um espaço dedicado ao chamado Espaço Celina – que é “um projeto sobre mulheres, gênero e diversidade”.

Alguns relatos

Na infância, o sonho do capixaba Luiz Filipe Barbosa, de 18 anos, era estudar Direito. O motivo: ajudar a reduzir a desigualdade social do Brasil. No início do ano, Barbosa trocou a casa dos pais em Serra, na Grande Vitória, por São Paulo após obter bolsa integral em uma faculdade particular de Direito.

Na mesma época, a paulistana Thais Guilherme, de 24 anos, retomou o curso de Direito graças a um desconto de 60% em outra universidade particular. Na cabeça de ambos, o sonho de crescer na carreira vem junto de uma enorme dúvida: como se destacar em um mercado concorrido como o Direito?

"Nunca achei que seria fácil seguir a profissão, mas desejo o papel social de destaque que a advocacia pode proporcionar " - diz Barbosa.

A pesquisa mostra que, considerando profissionais de outras áreas, incluindo os de funções administrativas, a fatia de negros sobe para 19%. No início deste mês, Thais e Barbosa foram contratados como auxiliares jurídicos no Escritório Mattos Filho, em São Paulo. Eles acompanham casos seis horas por dia, sob a supervisão de sócios. E treinam o inglês com professores contratados pelo escritório.

"Já sofri racismo ao procurar emprego. Há quem pense que uma mulher pobre e negra só pode ser empregada. Vou mostrar o contrário" - diz Thais.

Na mesma linha, um programa do escritório paulistano Demarest, chamado D Raízes, levanta debates internos sobre o tema. Por trás do interesse das grandes bancas em desenvolverem programas de inclusão, estão, entre outros fatores, a importância do quesito "diversidade" em rankings internacionais sobre a qualidade dos escritórios de advocacia, um bom cartão de visitas dos advogados no momento de buscar novos clientes.

"Discutimos temas como o viés inconsciente, a tendência de muita gente de acreditar que algumas profissões não podem ser exercidas por profissionais em função de sua cor, gênero ou orientação sexual" - diz Robson de Oliveira, advogado do Demarest que encabeça o D Raízes.

Criado em setembro de 2018, o programa busca contratar mais advogados negros. Desde então, 15% das novas vagas foram preenchidas por profissionais negros.

No Machado Meyer, escritório de São Paulo, a discussão começou em 2017 com o Incluir Direito, projeto para estudantes negros da faculdade Mackenzie.

"O intuito é fazer com que eles participem em pé de igualdade nas seleções " conta um dos sócios, Carlos José Santos da Silva.

Roberto Quiroga, sócio do Mattos Filho, ressalta que há escassez de negros em cargos de destaque nos escritórios. Para ele, por trás disso estão problemas estruturais da sociedade brasileira. A começar pela baixa presença de negros no ensino superior, questão que começou a ser endereçada nas últimas duas décadas com políticas de cotas em instituições públicas e de bolsas nas particulares. Dos que vencem a barreira de entrada no ensino superior, poucos buscam os grandes escritórios.

"Muitos pensam que esses locais não pertencem a eles. E, em um ambiente movido por conexões entre pessoas, como o Direito, infelizmente jovens negros fogem do radar dos recrutadores " - diz Quiroga.

Crescem as consultorias de recursos humanos voltadas para implantar programas de inclusão racial. A Empregue Afro, criada em 2013, vem triplicando a receita anual desde 2016. Este ano, a meta é bater R$ 1 milhão. Entre seus clientes, estão as gigantes Microsoft e Google, além de Burger King e Pão de Açúcar.

"A inclusão racial é uma tendência sem volta. Pesquisas mostram que ampliar a diversidade pode aumentar a produtividade dos funcionários" - diz Patrícia dos Santos, fundadora do Empregue Afro.

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Na web
Celina: um projeto sobre mulheres, gênero e diversidade. Clique aqui.

Silêncio da OAB-RS

O Espaço Vital Vital pediu à Assessoria de Comunicação Social da OAB-RS dados do nosso Estado sobre a atuação de profissionais de advocacia que sejam negros.

Foi perguntado se, no Conselho Seccional há, além dos Drs. Dorival Ipê da Silva e Karla Meura, mais algum conselheiro que seja negro? E se alguma Subseção gaúcha tem presidente negro?

A Ordem ficou silente.


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