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Porto Alegre (RS), terça-feira, 1º de dezembro de 2020.
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Charanga, bergamota, sol, futebol e o VAR



Chargista Renato Peters

Imagem da Matéria

Com o clima típico do inverno porto-alegrense, enquanto pensava no tema para o artigo, me veio a lembrança uma espécie de memória ao revés, com dizem os nossos hermanos.

O cinza da tarde nublada deu lugar ao colorido provocado pelo sol radiante de uma tarde dominical de inverno, enfim imaginei que o Internacional entraria em campo. É claro que para ser um quadro pintado por mim com o pincel da nostalgia, o jogo era no antigo Beira-Rio, aquele cuja inauguração testemunhei.

Imaginei ter em mãos um saco de bergamotas que eram lenta e ininterruptamente consumidas, no aconchegante calor do sol.

É incrível relembrar situações que se cotejadas com a realidade atual, tornam-se prosaicas. Naquela época havia partida preliminar, geralmente com a atuação de uma das categorias que chamávamos de juniores ou de infantil. O Beira-Rio nos enchia de orgulho.

Contornando o espaço existente antes do gramado, havia uma pista atlética. Nela, antes dos jogos, ou nos intervalos, eram promovidas apresentações. Geralmente eram corredores de modalidades atléticas e, ao menos em uma oportunidade, lembro de uma corrida de karts. E a estreia do espetacular carro maca que colocava o Internacional no patamar da modernidade. Ele deu a volta olímpica, sendo aplaudido pelo estádio inteiro.

Hoje, comparado ao que dispomos de recursos, parecemos ter sido seres ingênuos vindo de um outro planeta. Sim, um planeta extinto.

Bem a minha imaginação foi socorrida pela memória, pois faltava algo nessa narrativa.

Lembrei primeiro do garçom que de paletó branco e gravata borboleta, carregando uma bandeja apoiada na barrica e presa ao pescoço, oferecendo para a compra, uísque (Natu Nobilis e Old Eight), nas cadeiras perpétuas e nas cativas.

Mas faltava algo inesquecível, a charanga colorada. Sim, duvido que o termo seja conhecido. Charanga é uma pequena banda, constituída de instrumentos de sopro e alguns tambores. Os músicos colocavam-se na parte nobre da arquibancada superior, abrigados pela marquise e tocavam o tempo todo.

Era tempo da “coréia” e das imensas filas nos banheiros no intervalo do jogo. Era tempo da carrocinha de cachorro quente, das rampas e do radinho de pilhas.

Era tempo de Claudiomiro, a quem apelidamos orgulhosamente de tanque.

Mas, agora, são outros tempos. É tempo de VAR (vídeo assistant referee), com um árbitro de vídeo. Nem os mais audaciosos visionários imaginariam que os lances seriam decididos pela arbitragem durante a partida e com a exibição das imagens de vídeo.

Em resumo, a vida era analógica e tornou-se digital.

Que me desculpem os árbitros, mas como era bom, aos gritos xingá-los. Eram chamados de gato (com outro significado do que tem hoje), ladrão e filho disso, filho daquilo.

Seguindo assim, tudo indica que logo ali adiante, cada jogador terá um ou mais chips implantados, a bola outros tantos e sensores estarão instalados nas quatro linhas, na pequena e grande área, na linha do gol e nas goleiras.

O árbitro, ah ele, não será mais necessário, pois para decidir durante o jogo teremos um robô de última geração.

Que venha o futuro!


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