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Porto Alegre (RS), terça-feira, 14 de julho de 2020.
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Uma polpuda conta bancária pode ser definitiva para um grande amor



Arte EV sobre foto Camera Press

Imagem da Matéria

Enquanto o futebol é da seleção, sigo nas indagações.

São significativas as mudanças resultantes da chamada revolução tecnológica. Em pouco tempo todos os nossos hábitos relativos a informação e a comunicação foram substancialmente alterados.

Os debates suscitados pelas revelações das pretensas conversas entre o então juiz Moro e os integrantes do Ministério Público, fruto de uma confessada invasão de espaços privados, apontam desvios nas finalidades iniciais das ferramentas disponíveis na web.

Um importante cientista político rememorava na tevê que, por ocasião do início da internet, seus primeiros passos, liricamente imaginava que estávamos diante de uma ferramenta que possibilitaria a aproximação das pessoas, inclusive auxiliando na busca de pais, filhos e irmãos afastados pelos percalços da vida. Sonhava também com um mundo onde a cultura estivesse democraticamente disponível, sem represamento casuístico.

Posso estar enganado, mas o unabomber (terrorista que na década de 90 agia nos EUA), exigiu mediante ameaças, que os grandes jornais americanos publicassem uma carta de sua autoria. Nela, entre delírios psicóticos, apontava para algo que nos dias de hoje é de inegável constatação. Afirmava que a tecnologia nunca esteve tão disponível à humanidade, mas, ao mesmo tempo, em paradoxo, o homem nunca esteve tão só.

O sonho dos jovens entusiasmados com o novo mundo que despontava nos teclados e monitores, dava lugar a uma disfuncionalidade coletiva. Como dizia meu pai, o ser humano cria coisas maravilhosas, porém ao colocá-las em prática subverte os propósitos iniciais.

Invasões espiãs de contas, chantagens, manipulações, bobagens que vicejam nos grupos de amigos, passando por questões mais graves como a pornografia - inclusive a infantil - ocupam os espaços que resultaram de anos de estudos e de pesquisas dos profissionais da tecnologia da informática.

Não faz muito, fui surpreendido por uma conversa entre amigos, na qual foi noticiado que hoje, quando há interesse entre duas pessoas, uma delas pode ser submetida ao que chamam de “PF”. Trata-se de uma devassa na vida do outro, com pesquisa nos mais diversos cadastros. Imóveis, sociedades, veículos, vida social, família, etc. Uma polpuda conta bancária pode ser definitiva para um grande amor.

Além disso, há uma indesejável invasão publicitária. O meu celular, por exemplo, lê pensamentos. Se eu pensar em comprar algo, ele me enche de ofertas do algo.

Resumindo: a tecnologia não diminui a desertificação da existência.

Hoje, com a maior naturalidade as contas das redes sociais, os telefones e o computadores são vasculhados. Quem não lembra do rigorismo em nossa educação para que observássemos que correspondência era inviolável. Respeitávamos o envelope e o seu conteúdo.


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