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Porto Alegre (RS), terça-feira, 02 de junho de 2020.
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O hermeneuta e o VAR



Montagem de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

A despeito de todo o aparato tecnológico que permite a revisão detalhada de cada lance em jogos de futebol, as decisões do árbitro de vídeo, mais conhecido como VAR (do inglês ´Video Assistant Referee´) ainda são muito contestadas, gerando talvez ainda mais polêmica do que antes da implementação do sistema.

Para resolver a questão, o futebol brasileiro teve uma ideia brilhante: contratar um jurista de notório saber. Alguém cuja interpretação das normas e tipificação das condutas estariam imunes a qualquer discussão. Naquele momento, ninguém era mais qualificado do que Dr. Platão Socrático, eminente catedrático, contratado a peso de ouro para trazer paz ao esporte bretão.

Já no início do jogo de sua estreia, algo chama a atenção do hermeneuta: um jogador encurralado faz a bola explodir nas pernas do adversário e sair pela linha de fundo, obtendo tiro de meta para o seu time. A prática muito comum não escapou ao criterioso arbítrio do nosso VAR, que sugere a revisão do lance ao juiz de campo.

Este contesta:

- Mas, pela regra, o VAR sequer pode ser aplicado nesse tipo de lance!

O Dr. Platão Socrático ri do que acaba de escutar, engajando-se, de imediato, em sua tese:

- Em preliminar, é preciso considerar que as regras do futebol estão inseridas em um contexto normativo, assim como se subordinam a princípios e valores e seus respectivos vieses deontológicos e axiológicos. Inobstante, a Constituição Federal, lei das leis, estabelece que ´a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito´ (art. 5º, XXXVI), o que, por interpretação sistemática e analógica aplica-se à relação auto poética em debate...

A análise prossegue por vários minutos, mas ninguém tem coragem de interromper o doutor que parece estar em um prazeroso transe jurídico, enquanto discorre sobre subsunção do caso concreto às normas abstratas.

A partir de um dado momento, a organização do evento manda o jogo prosseguir. À imprensa e aos torcedores é dito que o VAR está com “problemas técnicos”.

As luzes do estádio já estão apagadas quando o árbitro de vídeo conclui seu raciocínio. Este, em resumo, é para cancelar o tiro de meta e marcar escanteio para o outro time, pois o defensor, maliciosamente, chutara a bola nas pernas do outro jogador, sendo injusto que se beneficiasse da própria torpeza.

A partir desse incidente, o VAR volta para as mãos dos árbitros de futebol, por serem considerados o menor dos males.

E Doutor Platão Socrático jamais consegue digerir tamanho desaforo. Ao saber que ao público se lhe haviam atribuído problemas técnicos, redargue com indignação:

- Problemas técnicos?! Problemas técnicos?! Vou lhes dizer o que é um problema técnico: confundir celeridade com qualidade. Isso, sim, é um grande problema técnico!


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