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Edição de terça-feira ,12 de novembro de 2019.

A preferência pelo cunhado



Charge de Gerson Kauer

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Pedro e Paula (nomes fictícios) eram jovens ainda – respectivamente 24 e 22 de idade – quando casaram, dez anos atrás. Eles levaram à frente seu matrimônio, sem filhos, durante mais de três milhares e meio de dias de muitas alegrias, poucas tristezas, mas lento declínio da temperatura conjugal.

Classe média alta, os dois com diplomas conceituados, haviam se conhecido na mesma universidade. Trabalhavam em duas empresas diferentes, cada um tinha o seu automóvel e residiam num confortável apartamento em cidade da região metropolitana de Porto Alegre.

Início de 2019, o marido com 34 de idade, ela com 32 - o casamento seguia rotineiro no tédio do televisor ligado, a conversa só sobre problemas no trabalho, a safadeza de políticos brasileiros, as liminares do Gilmar, o futebol nos domingos, superficial intimidade conjuga. E todas as manhãs, de segunda a sexta, era a rotina de dois beijinhos frios, trocados na garagem, antes que se afastassem, saindo para lados diferentes.

Os amigos mais chegados contam que Paula ainda amava Pedro, mas o casamento se despedaçava por causa da (desconhecida) epidérmica presença de uma terceira pessoa. Foi nessa conjunção que Pedro, cabisbaixo, foi formal com Paula, num sábado de janeiro, durante o jantar à base de pizza e água mineral:

- Como mulher inteligente e sensível que és, já deves ter sentido que nosso casamento acabou. Por isso, estou te anunciando que amanhã de manhã estarei indo embora.

Incrédula, Paula questionou e assim propiciou que o diálogo rápido evoluísse:

- Por que esta decisão?

- Sou homossexual!

- Pedro, não posso crer...

- Mas tens que acreditar. Amo um homem e já montamos um apartamento em Porto Alegre, onde moraremos juntos a partir da semana que vem.

- E quem é este homem?

- Teu irmão, o Miguel Ângelo.

Não é difícil imaginar que a cena, no lar que desmoronava, tenha sido composta, também, por uma unilateral crise de choro.

A surpreendente revelação que resultou na história aí de cima foi feita por Paula, diante do juiz da Vara de Família, quando este – ao receber os ex-cônjuges para a audiência de divórcio consensual – protocolarmente perguntou sobre a possibilidade de reconciliação.

Pedro manteve-se calado e Paula concretizou no arremate, em uma só frase, a dureza das páginas da vida:

- Impossível doutor, depois que eu passei a ser provável ímpar personagem do Livro Guinness dos Recordes!

O discreto magistrado ponderou que não entendera a frase. Mas o arremate de Paula foi esclarecedor e definitivo:

- Num mesmo dia eu me transformei, de fiel esposa, em cunhada do Pedro, meu ex-marido e inimiga de meu irmão Miguel. É uma conjunção ímpar, irreconciliável e insolucionável.

Ela assinou o termo e, chorosa, pediu desculpas, saindo porta afora da sala de audiências.

Repetição da base de dados do Espaço Vital – Publicação original feita em 03.09.2019


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