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Porto Alegre (RS), terça-feira, 7 de julho de 2020.

O inédito e imparcial sorteio



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Numa das mais retiradas comarcas de entrância inicial, o juiz chega ao fórum para o expediente da tarde e verifica que há muitas audiências na pauta. Após a terceira, aí pelas 16h30, a escrivã informa sobre a presença, no corredor, de um casal – eram dois irmãos, soube-se mais tarde – que queriam falar “um assunto particular, urgente”.

O magistrado informa que os atenderá, mas pede que esperem “um pouco mais”, pois ainda há duas audiências a realizar. Os irmãos resolvem aguardar. Já por volta das 18h, os visitantes são autorizados a adentrar ao gabinete. O juiz convida para que sentem. O senhor visitante, de nome Pedro - uma pessoa de jeito simples, mas de feições que denotam o bem – explica:

- Doutor, não temos mais pai. Só está viva nossa mãe, muito enferma no hospital. Ela só tem nós dois de filhos. Talvez, não chegue viva até amanhã.

Procurando abreviar o rumo da conversa, o juiz – já pensando que viria alguma pretensão de medicamentos a serem providos pelo Estado - retruca:

- Não sou médico, mas digam em que posso ajudar, dentro do que esteja ao alcance do Judiciário.

Ato contínuo, é a senhora – chamaremos de Maria, de cândida aparência - quem fala:

- Doutor, meu irmão e eu nos damos bem, temos nossas casas independentes, moramos bem distantes no interior. O impasse é que eu desejo que o velório de minha mãe ocorra na minha residência. Mas o meu irmão Pedro também quer que seja na casa dele. Viemos aqui, para que o senhor resolva.”

Não há processo em andamento, mas um problema esperando por uma decisão humana. O juiz fica perplexo, mas, propõe:

- A mãe de vocês ainda vive. O detalhe pode ser deixado para resolver depois do óbito...

Os dois respondem a um tempo só:

- Não, doutor, tem que ser agora!

Diante da situação, o magistrado pondera que só há uma solução possível: “Fazer um sorteio”.

Os dois aceitam. A escrivã é chamada. Escreve os papeluchos com os dois nomes, busca uma caixa de papelão e chama o estagiário para o sorteio imparcial.

Final da tarde do dia seguinte, a escrivã informalmente cientifica o juiz sobre o falecimento da provecta genitora dos dois visitantes. “Os atos fúnebres estão sendo realizados na casa de Maria - tal como decidido no inédito e imparcial sorteio” – arremata a servidora.

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(Sintetizado a partir de um relato do juiz Onaldo Rocha de Queiroz, publicado em “Justiça Além dos Autos”, livro editado pelo Conselho Nacional de Justiça).


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