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Porto Alegre (RS), terça-feira, 26 de maio de 2020.

Ex-faxineira do Ministério Público se formará em Direito



Carlos Haron / Divulgação

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No próximo sábado (21), a porto-alegrense Leana Chaves de Alcantara, 60 anos, cumprirá uma promessa que fez a si própria em abril de 2012, enquanto varria uma das salas de aula da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP): receberá o diploma de bacharel em Direito. Os formandos são 78.

Leana foi admitida no setor de limpeza da FMP aos 53 anos, depois de enfrentar o esvaziamento do mercado de trabalho nas funções que havia desempenhado: durante 19 anos, fora bancária e digitadora. Antes, durante 18 anos atuara com terapias alternativas e artesanato.

A vaga de auxiliar de limpeza veio por indicação de uma amiga. Nas primeiras duas semanas de trabalho, Leana quase desistiu da função de varrer o chão e tirar o pó das classes de quatro salas do 12º andar, no período da tarde, e também revisar todas as salas e banheiros de cinco andares do prédio, no período da noite.

Um dia deparou-se com um trecho sobre Direito de Família, escrito no quadro de uma das salas. Pensou então que poderia aprender mais sobre o tema para discuti-lo em qualquer roda de conversa. Para isso, era preciso voltar a estudar. Pesquisando, descobriu que poderia ter incentivo educacional da instituição se fizesse a graduação — ela concluíra o Ensino Médio há 36 anos.

Leana prestou o vestibular no inverno daquele ano. A decisão foi compartilhada apenas com o marido, Jorge Augusto Bandeira Lang. Mesmo distante dos livros havia três décadas, Leana aproveitava as horas de folga para revisar testes da própria faculdade e estudar com a ajuda de canais do YouTube.

Sua história comoveu a cúpula da faculdade, que lhe destinou uma bolsa de 100% para que ela estudasse à noite. Nos períodos de descanso do trabalho e de estudo, a biblioteca se tornou o espaço mais frequentado. A rotina pesada causou-lhe reprovação em algumas disciplinas nos primeiros semestres e o curso de Direito - previsto para ser concluído em 10 semestres – foi finalizado em sete anos e meio.

Ontem (16) o Clic RBS – com texto da jornalista Aline Cuistódio - tornou públicos outros detalhes tocantes. O presidente da FMP, Fábio Roque Sbardellotto resumiu que “quando surgiu a dona Leana, houve um casamento de ideais. Ela, uma idealista, um grande exemplo de humanidade e superação, estava ajudando à FMP, e nada mais justo do que a faculdade se voltasse para ela, oferecendo espaços. Leana é um exemplo daquilo que as pessoas devem buscar de dedicação, de competência, de humildade e de muita autoconfiança e esperança em melhoria de vida”.

Dois anos e meio depois de ingressar na limpeza da instituição, Leana sido promovida a recepcionista. Na mesma época, ficou viúva, e os estudos a ajudaram a ter a força necessária para enfrentar a perda do marido. Em novembro último ela se tornou secretária do diretor da faculdade.

Dentro de cinco dias receberá seu diploma de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. A etapa seguinte, em 2020, será enfrentar o Exame de Ordem. Tem muita garra para alcançar mais uma façanha.


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