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Porto Alegre (RS), terça-feira, 30 de junho de 2020.
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As esposas de Mohammed



Arte EV sobre foto Camera Press

Imagem da Matéria

Quem viveu na fronteira gaúcha sabe o significado de “Vou nos turcos”. Vem-me à lembrança uma rua com lojas de migrantes palestinos, libaneses, iraquianos e jordanianos, todos batizados por aqui como “turcos”.

Máquina de escrever, papel carbono, carimbos, folhas verdes e de seda para as cópias, tudo no carro (uma Rural Willys), preparado pelos vogais da Junta de Conciliação e Julgamento que partiria rumo a fronteira gaúcha, atendendo na Câmara de Vereadores, as demandas do Posto da Justiça do Trabalho.

Uma pauta extensa para cumprir, incluindo uma ação plúrima, na qual apenas mulheres buscavam os seus direitos em face de Mohammed, Khalil & Zayn Ltda. - “Loja A Preferida”.

O relato apontava para algo muito comum nas cidades onde, cruzando uma rua, estamos em outro país. Finalmente o oficial de justiça havia encontrado um sócio para efetivar a notificação com efeito citatório.

Feito o pregão, ingressam na sala oito moças, aparentemente com a mesma idade e um jovem palestino que não portava documento. O juiz imagina tratar-se de Mohamm

- “Doutor, eu não sou o Mohammed do contrato, pois aquele é o Tio Zayn que eu não sei por onde anda. Eu apenas quebrei um galho cuidando por um tempo da loja e me chamo Mohammad".

No contrato social havia Mohammed & Mohammad com toda sorte de combinações.

As jovens autoras confirmavam que havia vários homens, alguns muito próximos ao jovem que também compareciam sistematicamente na loja.

Aquele processo rumava para ser incluído dentre os sem solução.

Conversa vai, conversa vem, o juiz lança uma pergunta ao jovem palestino: “Qual é a sua situação de permanência no Brasil?”

O juiz, diante da inexistência de qualquer documento de identidade, sugeriu uma ligação à Delegacia da Polícia Federal.

Isso gerou uma intensa agitação no jovem que anunciou e repetiu: “Eu paga, eu paga!”

Colocou a mão no bolso, tirou um maço de notas separando: “R$ 1.500 para a Helena; R$ 2.500 para a Maria Luíza...”.

E por aí...

Anos depois, já em outra cidade e as Juntas transformadas em Varas, sem vogais ou classistas, sem papel carbono e máquinas de escrever, na pauta uma ação de vários empregados de um restaurante que havia fechado as portas com débitos.

Apregoadas as partes comparece um homem representando o restaurante. Com ele ingressaram na sala, tomando assento na assistência, duas jovens.

Aos poucos a narrativa. O estabelecimento, um restaurante árabe, havia sofrido um incêndio que consumiu com tudo. No contrato social, uma vez mais, o registro de Mohammed, Mohammad, Khalil etc.

Com a perspectiva de que nada poderia ser feito para o pagamento dos trabalhadores, com a audiência se encaminhando para o encerramento, uma das jovens pergunta: “Doutor, o senhor não lembra do caso da Loja Preferida e da indagação da situação de permanência dele no Brasil?"

Recuperada a memória do caso, indaga o magistrado à jovem: “... E vocês quem são?”

A resposta causou alvoroço dentre os demais que estavam na sala de audiências: “... Nós somos duas das várias esposas!”

O juiz passa a mão na barba embranquecida pela idade, mira com os olhos Mohammed ou Mohammad e dispara: “Aqui no Brasil poligamia é crime!”

Após um providencial silêncio, o jovem palestino repete: “Eu paga, eu paga!”

E mais um maço de notas sai do bolso.


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