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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 3 de julho de 2020.
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A linguiça mal entendida



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

O membro do Ministério Público, hoje aposentado - circunspecto e respeitável - colecionou histórias pelas cidades em que passou nas entrâncias inferiores, antes de ser promovido à capital. Ele gostava de contar a epidemia de trotes telefônicos ocorridos em determinada comarca, 100 mil habitantes, antes que o uso do “bina” (identificador de chamadas) fosse uma rotina. As pilhérias alcançavam a casa do juiz, o gabinete do prefeito, o médico plantonista do hospital, a delegacia de polícia e até a casa canônica.

Certo dia o promotor, na sala da sua residência, lia um processo quando sua filha de 13 anos dali ligou – no bom e tradicional telefone fixo - para o armazém do Seu Manoel:

- Bom dia! A mãe mandou perguntar se tem linguiça da colônia...

O promotor notou, porém, que a filha - chocada e vermelha - desligou rapidamente. Prestativo, então, perguntou o que acontecera e a adolescente respondeu que o português lhe dissera umas barbaridades, a ponto de ela sentir-se desconfortável para repetir os impropérios.

Indignado, o pai discou para o armazém, identificou-se ("Aqui é o promotor"...), tirou satisfações e exigiu explicações.

Do outro lado, Seu Manoel - sabendo com quem estava falando... – tratou de desculpar-se:

- O senhoire sabe, os gajos passam o dia inteiro a me gozaire, imitam até voz de mulher, chegam a pedir para soltar no rio as sardinhas que estão enlatadas. Por isso, quando sua filha perguntou pela linguiça, sem dizer de onde era, respondi que tinha, mas perguntei se era para ela socaire naquele lugar. Foi um engano terrível. O senhor me perdoe, doutor!

O relato evocativo foi feito na capital, 20 anos depois do fato, no gabinete presidencial da seccional da OAB. O ex-promotor já estava aposentado como procurador de justiça. Foi então que um conselheiro da Ordem atalhou:

- O senhor, evidentemente, como pessoa educada que é, aceitou as desculpas, não é mesmo?

A resposta do jubilado visitante foi surpreendente:

- Não deu tempo. O dono do armazém prontificou-se a providenciar o pedido mal interpretado. Perguntei-lhe, então, se tinha linguicinha calabresa, bem apimentada. Quando ele respondeu afirmativamente, não resisti à tentação: mandei que ele dobrasse o produto e enfiasse no...


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