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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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Teoria da (Im)previsão



Arte EV sobre foto Freepik

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Filha de um grande jurista já falecido, a advogada recém formada - buscando orientações sobre o rumo que deveria dar à sua carreira - resolve procurar uma cartomante. Esta, além de tarô, jogava búzios, era astróloga, vidente, médium e ainda trazia a pessoa amada, de volta, em três dias.

Com toda essa titulação, a esotérica recebe nossa advogada com uma voz sombria:

- Eu fui avisada de que você viria aqui.

Ao ver a cara de pavor da doutora, a cartomante esclarece:

- Sua mãe, que é minha cliente antiga, me ligou dizendo que você viria. O que você deseja conhecer?

- Quero saber sobre a minha carreira. Onde estarão as boas oportunidades para os advogados, no futuro próximo?

E então, a taróloga entra em transe. As cartas caem de suas mãos e ela alerta que o espírito do grande jurista pai da consulente está presente e deseja fazer contato com a moça.

A médium, então, começa a balbuciar palavras com muita dificuldade. A advogada toma nota do que consegue compreender e que é apenas o seguinte: “Rebus sic stantibus. Imprevisão! Convide dezenove! Morta, morta! Corona, corona!”

- Uau! Que experiência! – suspira a advogada.

- Essa mensagem faz sentido para você? – indaga a exotérica.

- Todo advogado conhece a cláusula rebus sic stantibus, segundo a qual as condições podem ser revistas, se fatos extraordinários e imprevisíveis modificarem o equilíbrio do contrato trazendo desvantagem a uma das partes. É a teoria da imprevisão. Eu acho que meu finado pai está sugerindo que eu convide 19 colegas e abra um escritório especializado em revisionais de contrato, pois em breve acontecerá um fato imprevisível.

- E quando ele diz “morta” e “corona”?

- Acho que ele quer dizer que está me dando, a morta, ou seja, a barbada. É uma gíria! E que se fizermos isso vamos ter muito sucesso e comemorar com uma cervejada - responde a novel doutora.

- Se você diz... – pontua, reticente, a cartomante.

Pouco tempo depois, a jovem advogada segue os conselhos - vindos do além - de seu falecido pai e abre uma grande banca de advocacia especializada em revisionais de contrato, pouco antes de estourar a pandemia de coronavírus. O escritório tem, então, uma ascensão meteórica diante da necessidade generalizada da se renegociar contratos e rever cláusulas.

Entusiasmada com o sucesso e sem nunca esquecer as palavras póstumas de seu pai, a advogada sai para comemorar, mas ao desrespeitar a quarentena acaba contraindo a Covid-19, vindo a falecer, em seguida.

Ao deixar seu corpo, a alma da jovem era aguardada pelo espirito de seu pai. Ela então fita-o nos olhos e desabafa:

- Papai, me desculpe. Você quis ajudar, mas só agora entendi sua mensagem.

- É... Você aprendeu bem sobre a teoria de imprevisão. Na próxima encarnação vamos trabalhar melhor a hermenêutica. Você acha mesmo que eu usaria a expressão “dar a morta”? Data maxima venia!


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