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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.

O preço de uma vida



Imagem Adobe Stock - Edição de Gerson Kauer

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Por Plinio Carlos Bau, MD. e PhD., professor titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da PUCRS.

Costumamos dizer que “uma vida não tem preço". Todos temos direito ao melhor tratamento de saúde possível. Mas qual é o melhor tratamento?

Aquele que prolonga a vida por alguns anos, alguns meses, alguns dias? Aquele que faz melhorar? O mais caro? Aquele que o paciente considera aceitável, lógico, suportável, e que está de acordo com seus princípios morais, éticos ou religiosos, invocando aqui o primeiro princípio da bioética, que é o da autonomia?

Aquele que o médico considera como o mais eficaz? Aquele que é o mais documentado do ponto de vista científico?

Baseado em trabalhos de dois pensadores, Hélio Schartzmann, brasileiro, e Marco Bobbio, médico italiano de Milão, penso hoje que o melhor tratamento" de dez anos atrás, hoje já não é mais, tendo sido superado por drogas e procedimentos mais novos e eficazes.

O que pode ser "o melhor tratamento" em uma comunidade isolada no centro da África, certamente não é o melhor para um hospital especializado do primeiro mundo. Aquele que pode ser o melhor tratamento para um paciente jovem, pode não ser para um idoso.

A medicina moderna sofre um bombardeio diário de novos medicamentos. Nós que vivemos nas Escolas de Medicina sabemos muito bem disso. A vida humana é imprevisível, assim como é imprevisível a evolução de cada doença.

Quanto vale uma vida humana? Normalmente dizemos que uma vida não tem preço. Entretanto, alguns governos e empresas de seguro fazem este cálculo o tempo todo. Para o FDA (órgão do governo dos EUA com a função de controlar os alimentos e medicamentos) uma vida vale 77,9 milhões de dólares. Já para outra agência ambiental americana, o valor é 9,1 milhões de dólares.

Os britânicos são mais sovinas: para o governo de Sua Majestade, um súdito sai por 1,6 milhões de libras, segundo estimativa oficial. Considerando que um britânico tenha uma expectativa de vida de 81 anos, podemos calcular que o governo atribui a uma hora de existência terrena o valor de 2,24 libras, menos do que o salário mínimo local que é de 6,5 libras por hora.

Para exemplificar, existe uma curva em uma estrada que mereceria uma correção. Ela causa em média duas mortes por ano. Fazendo as contas, concluiu o governo britânico que não vale a pena investir o valor necessário para corrigir o problema.

Embora fiquemos todos indignados com isso, é impossível imaginar o mundo de hoje sem atribuir um valor à vida humana. Gostemos ou não, estes cálculos existem e podem ser conferidos nas referências citadas. Podem ser explícitas ou mantidas como um segredo de governo.

Pessoalmente continuo pensando que "uma vida não tem preço" e desejando que as pessoas encarregadas destes cálculos façam um bom e honesto trabalho.


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