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Porto Alegre (RS), terça-feira, 26 de maio de 2020.
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A adorável reclamante



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)

O bem apessoado juiz do Trabalho abre a tarde de audiências. Ele imagina que todas serão cansativas como sempre, pouco atrativas como nunca, enfadonhas como habitualmente o são.

O magistrado tem a fama de olhar fundo às mulheres bonitas, sejam advogadas, partes, ou servidoras. À época, não havia essa marcação cerrada sobre assediadores, então chamados apenas de galanteadores.

Apregoadas as partes, entra triunfantemente na sala a elegante, jovem e bela reclamante. Ela exibe um par de pernas sedosas, deixadas à mostra por uma saia de seda marrom “na medida tolerável”. A fina camisa de seda não é decotada. Mas o conjunto é o suficiente para que o juiz reconsidere sua avaliação sobre a imaginada modorrenta tarde de audiências.

Começa o depoimento pessoal da linda autora. Ela cruza as pernas; o magistrado não tira os olhos do panorama. As perguntas são afáveis e as respostas melífluas.

– Nunca me pagaram o salário prometido – desliza a voz doce da reclamante.

Em seguida, vem o depoimento do representante da empresa. Ele afirma desconhecer que a reclamante ganhasse um salarião daqueles de botar inveja até em deputado federal.

Então, o inusitado. O juiz olha para os dois vogais (hoje inexistentes) e anuncia: “Temos aqui uma confissão ficta. A ação será procedente”.

O advogado da empresa salta da cadeira e protesta: “Mas como? Em nenhum momento houve esta confissão”.

– Acalme-se, doutor – diz o magistrado – se a ré desconhece o salário que a autora ganhava, vale o valor que ela diz, na inicial, que lhe prometeram. É confissão ficta. Vou encerrar a audiência.

O advogado da reclamante, que parecia não estar entendendo nada, também protesta:

Excelência, nós vamos provar que ela ganhava esse salário.

– No meu entendimento, isso já está provado – afirma o magistrado. Mas, como o senhor advogado insiste, vamos à instrução. Feita esta, a sentença de procedência da ação é ditada na hora!

Advogados e estagiários vão atrás dos desdobramentos. Ficam sabendo que o juiz convocara a reclamante para um “tête-à-tête” na secretaria, após a audiência. E alguns meses depois constatam que, todavia, no TRT o recurso ordinário é inteiramente provido e que a adorável reclamante fica sem o seu enorme salário.

O que aconteceu depois, a “rádio corredor” não conseguiu saber até hoje.


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