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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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A servidão voluntária nas redes sociais



Jus Azul em retiro. Sem futebol. O assunto é outro. Nunca tantas notícias foram classificadas como fake ou mentirosas, falsas. Platão detestava a choldra que espalhava fofocas. Foi o primeiro a denunciar fake news, quando escreveu o Mito da Caverna, avisando: “As sombras são sombras, oh, estúpidos”.

Mas atualmente isso tem piorado. Nunca apareceram tantos especialistas em coronavírus. Tem mais especialistas no vírus que comentaristas de futebol. É a era do opinionismo.

Mas, por que as pessoas aceitam tantas mentiras e se deixam influenciar por analfabetos funcionais?

A coisa é antiga. Por que obedecer? Por que seguir a manada? Em 1548 foi publicado, depois de sua morte, um dos livros mais impactantes já escritos: falo de O Discurso da (ou sobre a) Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, escrito aos 18 anos. Escrito inicialmente como um panfleto, tornou-se um “tratado” acerca da dominação e do “medo à liberdade”.

Diz no texto que o tirano obtém seu poder com a conivência do próprio povo subjugado e que a este bastaria decidir não mais servir, recusar-se a sustentá-lo para que se tornasse livre. Está em nós enraizada a vontade de servir, apesar de existir em nossa alma um germe de razão produtor da virtude e de que a própria natureza é justa (pois para esta, nenhum ser humano pode ser mantido em servidão).

Por que obedecemos? Por que nos acostumamos com a dominação, enfim, com a servidão? Parece uma contradição falar em servidão voluntária. Mas não é. Há um hábito que se transforma em dominação “querida”. Dominação fofa.

Treinamos diariamente para sermos mais e mais dominados. Escrevemos bobagens nos grupos de neocaverna (WhatsApp) e espalhamos notícias falsas. E depois nos queixamos.

Ora, o poder é uma fogueira alimentada pela lenha que diariamente colocamos. Mais lenha, mais poder. Solução: talvez não colocar mais lenha. Nenhum fogo arde sem combustível.

Alguns governantes se alimentam e se reforçam com o repique do ódio. Parece que há uma corrente de energia que vai e retorna mais forte. Mas não são apenas os governantes. Também as pessoas no seu cotidiano parecem só funcionar quando colocam lenha da fogueira...colocando discursos de raiva. O prêmio: obtenção de migalhas de calor da fogueira das vaidades...do poder.

Vejam. Hitler e qualquer regime totalitário dominaram milhões com seus serviços secretos. Imaginem a tirania tendo a força do Google e tudo o que sabemos da captura de nossos dados a partir das redes sociais?

Eles sabem tudo. Não há mais segredos. O que Étienne diria se, ao seu tempo, existissem as redes sociais? Queria ver Hobbes, cujo motor era o medo, virar-se com os discursos de ódio das redes sociais. Seus livros seriam muito mais ácidos (o de Hobbes e do Étienne).

A servidão, hoje, é mais que voluntária. Aliás, Étienne dizia que a servidão voluntária era a efeminização do povo (atenção, no sentido que se dava à palavra à época).


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