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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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As qualidades do texto moderno



Edição EV sobre imagem Visual Hunt

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As qualidades do texto moderno (2)

A objetividade é outra qualidade que ganhou especial importância nos textos modernos.
Movido pela pressa e pelos inúmeros afazeres, o leitor não dispõe de tempo (ou acha que não
dispõe) para ler obviedades, coisas que ele já conhece ou que não lhe interessam, como que
dizendo: “Tenho mais o que fazer”.

Houve época em que ninguém se incomodava com a leitura de obviedades. Era até
considerado uma forma de cortesia para com o destinatário, de distinção. Hoje, essas inutilidades
são consideradas faltas de cortesia e mesmo de ofensa à inteligência do leitor. Observe-se este
exemplo, comum em petições judiciais:

- Vimos pelo presente solicitar a Vossa Excelência... Não é óbvio que quem vai, está indo?
Então, porque “Vimos”? Por que “pelo presente”? Não é óbvio que não será por outro? Como se
vê, o que parece ser uma forma cortês, é, na verdade, uma descortesia, uma ofensa à inteligência
do leitor. Então, sugere-se trocar por forma mais objetiva e, por isso, mais cortês: Solicitamos a
Vossa Excelência.

Pior do que essa forma de iniciar uma comunicação é uma ainda usada para a despedida:
- Nada mais havendo a tratar, aproveitamos a ocasião para renovar nossos protestos da
mais alta estima e distinta consideração. Examinemos: Se o autor simplesmente parasse de
escrever, o destinatário já não saberia que ele nada mais teria a tratar? Ele também não saberia que
o autor estaria aproveitando a ocasião para alguma coisa? Por que “protestos”, se a manifestação é
de estima e consideração? Nem se entre no mérito do restante da mensagem, porque é mesmo o
resto. Enfim, está difícil de encontrar algo de positivo nessa despedida. Só falta um “amém”.
Aliás, a maioria absoluta dos destinatários, quando chega no “Nada mais havendo...”, nem lê o
resto, por duas razões essenciais: já conhece de cor e, principalmente, porque não acredita na falsa
declaração de amor... Modernamente, troca-se toda essa ladainha por “Atenciosas saudações”, ou
“Atenciosamente”, ou, se o destinatário for de hierarquia superior, “Respeitosas saudações”, ou
“Respeitosamente”. Há alguma falta de cortesia nessa forma objetiva?

Os processos judiciais modernos também precisam contemplar essa desejada objetividade.
Não há mais lugar para aqueles processos inchados por jurisprudência, doutrina e palavrório
desnecessários. Em nome da celeridade da Justiça, sugerem-se iniciais objetivas, precisas, claras e
concisas, esperando-se o mesmo das sentenças.

Em seus pareceres jurídicos, os advogados também têm que se ater a essa limitação de
tempo de seus clientes, que esperam posições seguras, mas também objetivas, precisas, claras e
concisas.

A objetividade pode ser comparada ao avião que chega para pousar no destino. O normal,
o objetivo, é que ele pouse de imediato, que não fique dando voltas e mais voltas antes de pousar.
Só fará isso se houver motivo que o impeça de fazê-lo.

Mais uma vez, confirma-se o princípio linguístico: o ambiente e o espírito da época são
determinantes da forma de linguagem.


A PALAVRA DO LEITOR

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