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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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As qualidades do texto moderno



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O leitor certamente conheceu pessoas que falam, falam e falam, mas nada dizem. Para compensar, deve ter conhecido outras que quase não falam, mas, quando o fazem, dizem tudo em poucas palavras. Estas últimas são as que praticam a concisão.

Pois, entre todas as qualidades do texto moderno, a concisão é das mais importantes e, ao mesmo tempo, talvez a mais difícil de ser alcançada. Consiste em dizer tudo com o mínimo de palavras. Faz-se, portanto, economia linguística, que, no entanto, não pode ser confundida com economia de pensamento. Este deve ser expresso por inteiro. O maior perigo para o iniciante é levar os princípios da objetividade e da concisão para o extremo de quase nada informar, deixando tudo para a adivinhação do leitor.

Bom exemplo de concisão encontra-se no jornal: trinta anos atrás, as páginas dos jornais, em média, eram formadas por 70% de texto e 30% de ilustrações; hoje, em função da necessidade de concisão, imposta pelo espírito de pressa dos novos tempos, esses percentuais se inverteram. Os redatores têm que se limitar à essência do conteúdo, além de levar em conta o que as ilustrações (fotografias, gráficos, quadros, etc.) já informam, para evitar a redundância, um dos grandes inimigos da concisão.

Na literatura universal, o escritor Ernest Hemingway é modelo a ser seguido quando se trata de ser conciso. Todas as narrativas dele são curtas se comparadas com as da maioria de seus contemporâneos. O Velho e o Mar, por exemplo, tem em torno de 160 páginas, graças a sua preocupação com a concisão. Ele adotava uma estratégia: concluída a elaboração da obra, colocava-a numa gaveta e iniciava outra; concluída esta, retomava aquela, com um único objetivo: retirar os excessos, fundir, reduzir; enfim, tornar mais conciso, não se permitindo acrescentar nada.

Para exemplificar o processo de concisão a ser adotado pelos que escrevem, ocorre-me a mensagem comumente encontrada nos potes de mel: “Puro mel de abelha”. Uma pergunta: além da abelha, quem mais faz mel? Resposta: só a abelha. Então, basta dizer “Puro mel”. Segunda pergunta: a abelha faz mel que não seja puro, honesto? Resposta: não. Então, basta dizer “Mel”.

É fácil ser conciso? Não. Exige muita reflexão, muito trabalho e, portanto, tempo. Contam que um pregador ficou famoso em função da profundidade e, ao mesmo tempo, da concisão de suas prédicas, que duravam apenas 15 minutos, mas transformavam o pensamento de seus ouvintes. Um jornalista resolveu entrevistar o religioso para conhecer a estratégia que este adotava. Iniciou perguntando: Quanto tempo o senhor levou para preparar esse sermão de 15 minutos. Resposta: em torno de três dias. E se fosse de 30 minutos? Resposta: um dia. E de uma hora? Resposta: posso começar agora mesmo. Portanto, ser conciso dá trabalho. A vantagem é toda do leitor ou do ouvinte. Aliás, para quem escrevemos ou falamos?

Estratégia essencial para alcançar a concisão é listar as questões fundamentais a serem abordadas, aquelas que não podem faltar. Um convite, por exemplo, que não informe nome, local, data e hora do evento não atingirá seus objetivos. O mesmo se aplica a qualquer peça jurídica: há questões que não podem ser omitidas, sob pena de comprometê-la por inteiro.

Na linguagem jurídica moderna, o ideal da concisão demorou a chegar, mas já se está impondo. A insistência no uso de argumentos similares e a repetição de jurisprudências iguais, antes entendidas como estratégias de convencimento, parecem estar sendo substituídas por argumentos mais concisos e, por isso, mais convincentes. Em outras palavras, na prática, os processos tendem a ser desinchados, mas nem por isso menos consistentes.

Escreva Direito na Itália

A advogada gaúcha Sabrina Strassburger, radicada em Turim, na Itália, onde atua na área de contratos da Fiat, enviou simpática mensagem manifestando sua apreciação do texto sobre a objetividade, que publiquei na semana passada e que ela compartilharia em seu grupo. Aliás, as qualidades do texto moderno se aplicam a qualquer idioma. 


A PALAVRA DO LEITOR

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