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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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´Número 1, ou número 2?´



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

O título tem nada a ver com os dois primeiros dos quatro filhos de notório político. É uma história que se passa em uma distribuidora farmacêutica. Ela é minuciosa e irredutível no controle dos empregados, de ambos os sexos, nos momentos em que vão aos banheiros.

A Maria Cecília reclama muito “contra os absurdos e as indiscrições”, até que o gerente-geral cansa das exprobrações e demite-a sem justa causa. Um mês depois, aporta na Justiça do Trabalho a reclamatória trabalhista, com uma frase nuclear: “A empregadora fazia controle rigoroso e abusivo nas idas aos sanitários, a falso pretexto de proteção do seu patrimônio, extrapolando os limites do razoável”.

A contestação sustenta “a necessidade de vigilância interna para tolher eventual evasão de psicotrópicos e medicamentos controlados”.

O juiz colhe o depoimento da reclamante:

- Doutor, os banheiros estavam sempre fechados à chave. Os empregados só podiam utilizar após a revista pessoal. Antes eu tinha que me dirigir ao meu líder e pegar um crachá. Depois, era revistada com uma espécie de detector, pelo segurança. Ele me acompanhava, ficava do lado de fora do banheiro e, quando a gente saía, era feita nova revista com o aparelho.

Há uma pausa no depoimento. É que Maria Cecília revela desconforto.

- Doutor, não sei se posso continuar, mas tinha coisa mais constrangedora ainda.

O magistrado tranquiliza a trabalhadora:

- A senhora pode prosseguir.

- O segurança ficava encostado na porta e ainda perguntava: “É número 1, ou número 2? Vai demorar?” ... E a gente ainda se constrangia, porque – o senhor sabe como é... - às vezes o som dos gases vaza...

Os advogados de ambas as partes mostram-se compungidos. A escrevente baixa os olhos.

O magistrado maneia a cabeça e interrompe:

- É o suficiente. Já compreendi.

A sentença é discreta na abordagem, mas reconhece “o dano à esfera íntima da trabalhadora, em rotineiro constrangimento, em momentos tão reservados e fisiológicos”.

E defere R$ 13 mil pelo dano moral. O magistrado não especifica detalhes da cifra. Mas a “rádio-corredor” detalha com indulgência: “Foram R$ 3 mil pelo número 1; e R$ 10 mil pelo número 2”.

Sem recurso da reclamada, já há trânsito em julgado.


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