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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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Letra tem pé? E, se tem, chuta bola? As agruras filosóficas da imprensa!



Reprodução Globo Play

Imagem da Matéria

Há mais de vinte anos brinco com o “modelo” de fazer reportagem de tevê. Isso é antigo. Já era assim nos anos 80, quando escrevi sobre as “isomorfias”. Calma. Explicarei.

Não sei se ensinam isso nas faculdades, mas que é bizarro, ah isso é. Dizia eu em um texto de 1991: “Hoje em dia, o repórter para falar de uma enchente tem de estar com a água pelo pescoço”.

Bom, os repórteres se aperfeiçoaram. O humorista Marcelo Adnet fez um quadro que bem mostra o fenômeno. Sugiro aos leitores assistirem o vídeo, aqui e agora.

Na matéria, Adnet faz o que os repórteres fazem: acham que o telespectador é um imbecil, uma taipa, que não sabe o que é metáfora. Sim, o modelo de reportagem consegue fazer uma coisa que ninguém conseguira na linguística: explicar uma metáfora ou uma alegoria.

Essa da água pelo pescoço é velha. Matéria sobre mensalidades escolares: o repórter fala, com pausas, da frente do colégio. Depois estará na sala de uma família, com um carnê na mão. E “explicará” o que quis noticiar.

No futebol, então, formou-se uma escola isomórfica (nota: isomorfia é tentar “colar” palavras e coisas – digamos assim que o filósofo Wittgenstein tentou isso no livro Tractatus Logico Philosophicus, tendo, depois, escrito outro livro para dizer que isso não dava certo).

Aliás, em 1728 Jonathan Swift já brincava com isso no seu Viagens de Gulliver, quando mostra um “cientista” que inventou a comunicação sem palavras: mostrava só as coisas...! A literatura sempre corre na frente!

O time do Grêmio está subindo de produção (e o repórter mostra um avião decolando). Incrível, não? Ora, explicar aquilo que com que se queria explicar uma coisa?

O time do Flamengo está comendo a bola. É uma metáfora. Mas o repórter mostra um cachorro comendo uma bola. Adnet pegou bem a coisa. Repórteres querem pegar as coisas ao pé da letra. Bom, será que letra tem pé? A palavra água molha? A palavra fogo será que queima?

Se se quer dizer que o jogador é um touro, isso é uma metáfora para que as pessoas entendam mais facilmente.

Jesus falava por metáforas. Afora, se se diz que Hulk é um jogador forte como touro e, para isso, mostrar um quadrúpede no pasto, aí a vaca foi para o brejo... Putz: tem de mostrar a vaca indo para o capinzal.

Minha dúvida é: isso é ensinado nas faculdades? Bom, no Direito alguns cursinhos de preparação para concursos fazem quase isso. Rebaixam o estudante ao res do chão. Putz: tem de mostrar um rodapé ou.. como se mostra, mesmo, o res do chão?

De todo modo, não me peguem ao pé da letra (o repórter aparecerá pegando no pé de uma enorme letra...). Poxa, não consigo parar (aparece uma sinaleira).

Tenho de terminar na marra (e aparece....).

Marco Antônio, meu caro editar do Espaço Vital, corta! Salva-me desse moto contínuo... (bem..., se fosse o contrário, seria um contínuo...de moto...).

Não consigo parar...! Essa coisa pega.


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