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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 18 de setembro de 2020.
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Os touros do professor de Direito Penal



Foto Visual Hunt > imagem meramente ilustrativa

Imagem da Matéria

Em meados da década de setenta surgiram algumas bandeiras novas no movimento estudantil. A luta pelas liberdades democráticas cedeu algum espaço para a ecologia (denominação da época), o feminismo e a liberdade sexual. Essa mudança pode ser simbolizada pela ousadia do Fernando Gabeira que, retornando do exílio para onde foi como um guerrilheiro, exibiu na praia de Ipanema, uma minúscula sunga, surpreendendo os setores mais ortodoxos da esquerda brasileira.

Hoje sabe-se que a sunga era da prima de Gabeira, a jornalista Leda Nagle.

No interior do austero prédio da Faculdade de Direito da UFRGS, os corredores exibem antigos quadros de formaturas com as fotos de grandes nomes da advocacia, da magistratura, do ministério público e da política gaúcha e brasileira. O histórico prédio remete pela sua arquitetura, à tradição tão cultuada nos princípios caros ao conservadorismo, base da estruturação jurídica do Estado.

Havia encerrado a aula de Direito Penal e o professor encontrava-se no corredor, cercado por alguns alunos. Revelava com a devida reserva idiossincrasias de casos famosos que mobilizaram a atenção do Rio Grande do Sul.

O professor, homem de voz grossa, porém de fala mansa, que contava com os seus 70 e tantos anos, era conhecido pela seriedade. Pouco mostrava os dentes. Também era reconhecido pela sua forte atividade na pecuária, como proprietário de uma cabanha de aprimoramento genético de raça nobre. Com frequência, investindo somas altíssimas, importava touros da Inglaterra.

Os alunos ao seu redor eram aqueles que mais se identificavam com o mestre. Todos ali tinham identidades culturais, a começar por um conservadorismo às tradições representadas por aquele homem bem sucedido na carreira que, para os jovens, representava apenas um desafio futuro.

Em meio a um relato que prendia a atenção, vêm caminhando pelo corredor, contrastando com o ambiente, dois jovens: calças jeans, camisetas desbotadas, sandálias e bolsa de couro cru (baianas), cabelos crespos e a grande novidade: brincos.

O professor interrompe subitamente o relato, fixa o olhar nos dois, acompanhando-os com a cabeça, faz uma pausa longa, puxa o ar profundamente e diz em tom quase trágico:

“Nada mais me impressiona na vida! Os senhores sabem que me dedico à reprodução de gado, não raro importando touros consagrados. Não faz muito comprei dois touros ingleses, animais campeões da raça, robustos. Foram embarcados em um navio com todo o cuidado. Pois bem, quando aqui chegaram recebi a inacreditável notícia de que um deles, pulando o obstáculo físico que os separava no interior do navio e, contra todas as previsões, tentou cobrir o outro. O resultado foi o pior possível, um prejuízo e tanto! Um dos touros, aquele que queria cobrir o outro, quebrou a peça (membro reprodutor do macho) e o outro chegou descadeirado. Logo, nada mais me surpreende aqui na terra”.

Em resumo, assim como naquele período em Porto Alegre, subir em uma árvore evitando o seu corte, deu início à causa ambiental, o brinco dos alunos reintroduziu em nossa cultura a sua aceitação.

Índios, piratas, vikings já usavam antes o adorno sem qualquer problema.

Aliás, conta a lenda das chamadas sessões secretas dos tribunais que, bem perto de nós, algum tempo depois do fato acima narrado, teria ocorrido uma delas para discutir se seria, ou não, adequada a utilização de brinco por um dos seus membros.

O que ocorreu na sessão, tendo sido ela secreta, não se sabe até hoje.


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