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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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Como lidar com palavras estrangeiras



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As línguas sempre interagiram, umas contribuindo com as outras, algumas mais outras menos, dependendo da proximidade cultural. Na gastronomia e na moda, por exemplo, em passado recente, sofremos destacada influência de França e Itália, o que se refletiu de forma veemente no vocabulário da língua portuguesa nestas atividades. Já na informática, a influência do inglês é avassaladora, porque é a língua em que se expressam as descobertas desta área e das ciências em geral. Com o advento da globalização, que acabou com as distâncias entre as diferentes culturas, essa interação idiomática se acentuou de forma cada vez mais acelerada e intensa.

Por ter sua origem no Direito Romano, expresso originalmente em latim, a linguagem jurídica sofreu a natural influência dessa injustamente chamada língua morta, subsistindo até hoje dezenas de expressões latinas, a começar pelo “data venia”, seguindo pelo “in dubio pro reo”, “erga omnes”, “habeas corpus”, “ab initio”, “a quo”, etc.

Modernamente, a ciência jurídica também se inspira em outras fontes, como os Direitos inglês, alemão, francês, italiano, norte-americano, entre outros, fazendo com que a linguagem sofra a influência dos respectivos idiomas.

Para os operadores do Direito que escrevem em língua portuguesa, é comum e natural surgirem dificuldades com relação à forma de lidar com essas influências, com esses estrangeirismos. Em Portugal, a tendência é traduzir; por exemplo, “site” vira “sítio”, “mouse” é traduzido para “ratinho”, e assim por diante. Mais submissos à cultura norte-americana, no Brasil adotamos a tendência de manter a forma inglesa, adaptando a grafia à pronúncia inglesa um tanto aportuguesada: “saite”, “ofsete”, “leiaute”. Quando se trata de palavras em que não há a possibilidade dessa adaptação, mantém-se a forma da língua inglesa: “bullying”, “common law”.

Saite ou “Site”?

Levando em conta que o Espaço Vital é um veículo independente, não vinculado a formas de padronização, o editor Marco Antonio Birnfeld desde o início, no ano 2000, adotou para “site” a forma aportuguesada saite, que endosso plenamente por refletir a tendência no Brasil de aportuguesar a grafia, diferentemente de Portugal, que adota a tradução, ou seja, sítio.

Enfim, não há, pelo menos por enquanto, orientação segura para lidar com palavras de língua estrangeira. Ocorre que as línguas se fazem pelo uso no meio culto. A definição, a consagração, desse uso requer tempo e, como não se trata de ciência exata, a forma a se consagrar nem sempre segue princípios lógicos. No entanto, algumas orientações precisam ser seguidas.

Seguem algumas:

1. Grafia: Adotando-se a forma original da língua estrangeira, a grafia tem que ser diferenciada, havendo duas formas adequadas para isso: entre aspas ou em itálico (grifo); por ser redundante, nunca se deve usar em itálico e entre aspas. Caso se adote a forma aportuguesada, deve-se grafar a palavra sem qualquer forma de distinção.

2. Coerência: Num mesmo texto, o autor precisa manter-se coerente, usando sempre a mesma forma, sem alternar.

3. Excessos: O excessivo uso de palavras e expressões estrangeiras causa mal-estar no leitor e muitas vezes é interpretado como exibicionismo. Assim, sugere-se moderação, usando-as quando são indispensáveis ou quando a linguagem técnica requer. Essa orientação vale também para as expressões latinas, cujo uso deve ser comedido.

4. Cuidados: Quando optar pela forma original da língua estrangeira, é preciso estar atento à correção na grafia. É preciso lembrar-se, por exemplo, de que no latim não há acento gráfico, como em “data venia”, em “in memoriam”, etc. É importante estar seguro no uso de palavras ou sentenças em língua estrangeira, pois qualquer desatenção pode formar conceitos danosos no leitor a respeito da competência do autor do texto.

O assunto é inesgotável, razão por que eu apreciaria muito receber a colaboração dos leitores, expressando suas dúvidas e contrariedades em relação a assunto tão atual.


A PALAVRA DO LEITOR

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