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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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Por que injúria não é crime no futebol?



Camera Press / Revista Goal

Imagem da Matéria

Quando fiz um curso de pós-graduação sobre Cultura Popular nos anos 80, um dos temas estudados foi o futebol. Escrevi alguns trabalhos para conclusão de disciplinas, como O Goleiro Negro no Futebol: mitos e lendas. Também escrevi e pesquisei sobre o Futebol como Espaço Instituído e Instituinte da Democracia.

Escrevi, então, que a questão da relação futebol-democracia advém de alguns aspectos interessantes e peculiares. Embora os códigos digam que ninguém pode alegar desconhecimento da lei, é óbvio que isso não passa de uma arrematada ficção. São centenas de milhares de leis e regulamentos em um país como o nosso.

Então, qual é o busílis? Simples. No futebol são 17 regras. Conhecida por todos os torcedores. Se não as conhece bem, o sujeito as intui. Mas todos sabem o que é pênalti, impedimento, quando o juiz manda esperar para a cobrança da falta, goleiro não pode sair picando a bola como fazia antigamente, não se pode recuar a bola para o goleiro para este pegar com as mãos... Enfim, conhecemos as regras.

No cotidiano, quase nada sabemos do “sistema jurídico”. No futebol, a fiscalização é direta. Agora até com VAR. E é possível protestar, xingar o juiz. No cotidiano, xingar o juiz dá cana. No estádio de futebol, desde que não seja xingamento racista, pode-se fazê-lo à vontade. Portanto, injuria não é crime nesse espaço instituído da democracia, mas que é também instituinte.

Em campo, lesão leve não é crime. Fora, é. Até mesmo injuria dentro das quatro linhas pode dar cartão. Mas não dá processo. No cotidiano social, tudo é proibido.

Pênalti? Foi ou não foi? Todos sabem. Mesmo quando é contra nosso time, sabemos. Apenas não admitimos. No cotidiano social, o que é crime de responsabilidade? O que é pedalada fiscal? O que legitima defesa?

No estádio abraçamos o desconhecido. Porque pertencemos a algo. A um grupo. As distâncias sociais (com exceção do pessoal dos camarotes) ficam acinzentadas, dúcteis.

Lá fora do estádio, tudo volta ao normal, com excluídos e excluidores. Protestos? Vem a cavalaria.

Lembro dessas aulas. Foi no tempo em que o Grêmio se tornou pela primeira vez campeão da América e do Mundo. Domingo passado (17) revi o jogo. Que coisa, não? Dribles, pegadas fortes. Jogava muito esse time do Grêmio. E o Peñarol? Que belo time. O que era Venâncio Ramos?

Depois fomos a Tóquio. E a Terra ficou azul.

E só não ficou azul duas vezes por causa da arbitragem. A injusta expulsão de Rivarola. E a contingência (não gosto de falar de sorte ou azar) das cobranças de pênaltis.

Mas xingamos o árbitro. Porque no futebol pode. No cotidiano, não pode. Dá processo. Só pela internet é que “pode”. Ah, esqueci. O mundo mudou. Agora as redes sociais se tornaram o espaço dos xingamentos. Mas isso nada tem a ver com o ludopedismo. Sim, futebol é esporte ludopédico.

Ludicidade. Como me fez bem ver de novo Grêmio x Peñarol. E que festa democrática. No Olímpico. No jogo, houve muita lesão leve e injúria. Dentro do campo e dentro do estádio. Mas nenhum era crime.

Aqui fora? Bom, tudo vira crime. Por isso, temos de ludicizar o cotidiano! Tudo está muito cinza.


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