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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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O perigoso sotaque do advogado



Caricaturas de Mike Smith

Imagem da Matéria

As andanças dos juízes pelas diversas unidades judiciárias, permitem-lhes que formem um alicerçado conhecimento da cultura das regiões. Cidades onde predomina a colonização italiana são diferentes daquelas onde predomina a alemã.

É tão intensa a influência da origem familiar que, seguidamente, no momento em que a parte ou testemunha, é qualificada, ao fazer constar a nacionalidade brasileira na ata de audiência, há uma reação: “Doutor sou alemão”. Ou, “Doutor sou italiano”.

As reações diante da ação também são distintas. Os “alemães” revelam pouca flexibilidade. Inúmeras vezes em cidades onde predominam, frente à cogitação de um eventual acordo, ponderam: “Doutor ou estou certo ou estou errado, é o senhor que diz, se não devo ou se devo, seja mil, dez mil...

Já os “italianos” são mais flexíveis, pedem um tempo, fazem contas e contrapropõem, alegando intransponíveis dificuldades econômicas.

O juiz realizava audiências em uma vara sediada em uma bela cidade fortemente influenciada pela cultura alemã, para onde fora designado.

Uma servidora da vara, casada com um executivo de uma grande empresa, anualmente nas suas férias viajava para a Europa. Perguntada pelo juiz acerca de qual seria o seu roteiro no outro lado do Atlântico, respondeu: “Doutor só conheci os outros países na primeira vez, pois depois que conhecemos a Alemanha, não há porque deixar de ir só para lá. É o melhor lugar.

Normalmente as audiências eram momentos de muita formalidade e sem hostilidades. Pouca relação entre advogados de empregados e os de empregadores.

Em uma dessas audiências comparece um advogado, muito simpático e gentil, todavia com um marcante sotaque alemão.

Sua pronúncia era típica dessas regiões. Um verdadeiro troca letras.

Ele inicia a audiência pedindo licença ao juiz pois trazia um recado. Um grande abraço de um grande amigo apontando o nome do sócio da empresa reclamada. Como consequência, o magistrado que não havia identificado o sócio pelo nome da empresa, pondera que em razão do recado teria que se declarar suspeito.

Mas o advogado apressa-se em afirmar que não seria necessário, pois já havia conversado com a sua colega entabulando um acordo.

“Então vamos lá” - diz o juiz referindo-se às condições do acordo.

Definido o valor, o número de parcelas, as custas, a natureza das verbas, a cláusula penal, a quitação, encaminhava-se para a conclusão da ata.

A advogada do trabalhador, uma jovem morena, tomando a palavra alertou: “Doutor eu conto com a credencial sindical da Lei nº 5.584, tendo direito aos honorários de assistência judiciária gratuita.”

Este mecanismo é aquele que prevê a gratuidade ao hipossuficiente e o pagamento ao seu advogado - desde que credenciado pelo sindicato - de honorários, cotidianamente designado com AJ.

Feito o alerta, o advogado com o sotaque carregado próprio da região, no derradeiro troca letras, afirma: “Doutor a AJ da doutora é sagrada”.

Pronto, no caso o J teve som de X.

Diante daquilo que chegou aos ouvidos, o magistrado testemunhou a rápida saída rápida dos presentes, todos levando a mão à boca para conter o riso.


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