Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.

Depois da pandemia, os ricos ficarão mais ricos. Os poderosos, mais fortes



Arte EV - Imagens Camera Press

Imagem da Matéria

Por Daniel Aarão Reis, historiador brasileiro e professor titular de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense
daniel.aaraoreis@gmail.com

Há opiniões positivas: Michel Maffesoli, sociólogo, fala do reencantamento do mundo. Artistas anunciam dias melhores. Mais preocupação com a saúde, a ecologia, a organização das cidades. E também reconhecimento do papel do Estado na regulação dos mercados e, sobretudo, na organização dos serviços públicos essenciais — saúde, educação e segurança, em contraste com a degradação progressiva, evidenciada no combate ao maldito vírus, mesmo em sociedades opulentas, como os EUA.

Pesquisa realizada na França aponta para a expectativa de um mundo mais solidário, sóbrio, democrático, preocupado com o meio ambiente. São perspectivas construtivas, animadoras, viáveis. Em tese. Se forem enfrentadas e neutralizadas outras tendências, ameaçadoras.

Uma delas é o assustador crescimento da concentração da renda e das desigualdades sociais. Como demonstrou Thomas Piketty, um processo de décadas. Aprofundado com a crise de 2008. Ganha velocidade no curso da pandemia atual e, se as coisas continuarem assim, a situação pode piorar. Stéphane Lauer, em recente artigo, apontou para uma economia em crise face a sólidos mercados financeiros. Milhões de desempregados, dezenas de milhares de mortos, parentes, amigos e entes queridos angustiados e enlutados, empresas em dificuldades, à beira da falência.

Entretanto, as bolsas de valores vão bem, obrigado. O índice Dow Jones está 25% superior ao que era há alguns anos. Os lucros das grandes empresas suscitam euforia. A especulação com títulos e moedas corre livre e sem freios.

É razoável? Não, não é razoável.

Enquanto pesquisadores tentam encontrar uma vacina, os bancos e os investidores já têm a sua, graças à intervenção dos principais bancos centrais. A receita formulada para combater a crise de 2008 é adotada mais uma vez. Produzirá os mesmos resultados: os ricos ficarão mais ricos. Os poderosos, mais fortes.

Thomas Philippon, da New York University, registrou que apenas cinco empresas — Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft — detinham, em 2019, 20% da riqueza acumulada pelas maiores 500 empresas norte-americanas. São elas as que mais crescem no curso da pandemia.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se as ameaças às liberdades e à democracia. Na China e em outros países, aperfeiçoam-se softwares, disseminam-se câmeras para monitorar cidadãos através do reconhecimento facial. Adverte Noah Harari: “tecnologias imaturas e perigosas estão sendo utilizadas”. Os governos ampliam poderes “especiais” de controlar, investigar, perseguir, multar e pôr na cadeia. Operadoras telefônicas informam sobre a circulação e compartilham dados de geolocalização. Cidadãos são estimulados a delatar comportamentos “impróprios”.

Houve lugares em que se cogitou autorizar a polícia a entrar em domicílios privados, sem autorização judicial, para saber se os residentes estariam contaminados. Aconteceu na idílica Dinamarca, mas a “medida” não chegou a ser autorizada.

Nestes horizontes sombrios, contudo, há luzes piscando.

Na Holanda, 170 intelectuais assinaram um manifesto propondo caminhos a serem considerados no futuro imediato: questionar a economia obcecada com o crescimento do PIB, selecionar o que deve ou não crescer, segundo as necessidades das pessoas; redistribuir a riqueza; transformar a agricultura, valorizando a biodiversidade e a produção local; reduzir o consumo e as viagens; congelar as dívidas de trabalhadores, pequenos empresários e países mais pobres.

O italiano Franco Berardi, o Bifo, propõe meditar sobre uma sociedade livre da compulsão da acumulação e do crescimento econômico: “precisamos de comida, afeto e prazer, ternura, solidariedade e frugalidade”. Revalorizar o útil, o valor de uso em contraposição à abstração do valor de troca imposto pela dinâmica de um sistema capitalista predador.

Para depois da pandemia, à espera das que virão, Bifo e os holandeses sugerem sendas. Não será fácil tomá-las. Se tomadas, porém, mais do que salvar vidas, poderão tornar a vida melhor.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Notícias Relacionadas

Fake news é crime no Brasil?

“Observando nossa legislação, verifica-se que as ´fake news´ não se constituem em crime no nosso país. Tanto pela inexistência de previsão de seu tipo normativo, assim como pela ausência de qualquer cominação de pena. Mas isso não significa que elas não possam servir como um dos vários atos ou meio para a prática de determinado crime - como, por hipótese, a difamação”. Artigo de Carlos Eduardo Rios do Amaral, defensor público do Estado Espírito Santo.

Imagem Dicio.com.br

O apoio a profissionais do Direito perseguidos

 

O apoio a profissionais do Direito perseguidos

“A Associação Brasileira dos Advogados do Povo ´Gabriel Pimenta´ atua em prol aqueles que são molestados por exercer seu trabalho com independência e desassombro. E se constitui também como instância de produção intelectual e de ação concreta, dentro e fora dos tribunais”. Artigo dos advogados Henrique Júdice Magalhães (OAB-RS nº 72.676) e Felipe Nicolau do Carmo (OAB-MG nº 129.557 e OAB/ES nº 29.263).

Chargista Aroeira

O STF e o drama cósmico

 

O STF e o drama cósmico

“Entre erros e acertos, os ministros do STF, como ´jurisfilósofos´, têm deliberado sobre alguns ´astros´. Dos guardiões da Constituição, espera-se mais do que luz e revelação. Anseia-se por temperança”. Artigo do advogado Rafael Moreira Mota (OAB-DF nº 17.162)

Imagem Camera Press - Edição EV

A cobiça e o mau uso dos depósitos judiciais

 

A cobiça e o mau uso dos depósitos judiciais

Os empréstimos concedidos pela Caixa Econômica Estadual, nos anos 80, para associados da AJURIS. “O valor à época permitia - a cada um dos tomadores - a aquisição de 19 fuscas novos, valor a ser pago em 120 meses, tudo sem correção monetária, em tempo de inflação de 80% ao mês”. Artigo de Luiz Francisco Corrêa Barbosa, magistrado estadual aposentado e advogado (OAB-RS nº 31.349).