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Porto Alegre (RS),sexta-feira, 29 de maio de 2020.
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O hífen como marca de significado



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A função do hífen em palavras compostas é informar sobre mudança no significado; é uma forma de alertar o leitor para que ele não interprete a expressão ao pé da letra, que o sentido é figurado. Muitas vezes essa mudança é radical, como em puro-sangue, quando usado em referência a animal de raça; sem hífen, seria alusão a algum animal constituído apenas de sangue, sem ossos, pele, etc.

Em outras situações, é sutil, como em procurador-geral, expressão que sem hífen faria referência ao procurador de todas as coisas, e não ao chefe do conjunto de procuradores.

Há também casos em que duas palavras de sentido diferente se juntam para formar um novo significado, como ocorre em decreto-lei, que sem hífen seria expressão destituída de sentido.

Os mais delicados, porém, são aqueles casos em que a percepção da mudança de significado depende do conhecimento de um sentido pouco difundido, como ocorre com os chamados dias úteis da semana: segunda-feira, terça-feira,...

Qual a mudança de significado marcada pelo hífen? Ocorre que feira, na sua origem, significa descanso, tanto que o primeiro dia útil da semana é chamado de segunda-feira, do que se deduz ser o domingo a “primeira feira”, o primeiro dia da semana.

As palavras férias e feriado têm a mesma origem. Mas, o que a feira tem a ver com descanso? Ocorre que, em sua origem, as feiras aconteciam nos feriados e nos dias de descanso dos finais de semana, razão por que acabaram levando essa denominação.

O estrago da última reforma ortográfica

Em indevido acréscimo ao Acordo Ortográfico de 2008, a Academia Brasileira de Letras determinou a retirada do hífen de palavras compostas como pé de moleque, lua de mel, papo de anjo e de centenas de outras expressões que têm elementos de conexão entre as partes, o que significou verdadeiro atentado ao consagrado princípio norteador do emprego do hífen.

Aliás, desde que se retiraram os hifens de pé de moleque deixei de comer essa especiaria... Menos mal que preservaram os hifens dos milhares de nomes compostos de plantas e animais, como cana-de-açúcar, gato-do-mato, erva-doce, onça-pintada.

Alguns exemplos

- Dedo-duro: alusão ao dedo indicador, o que indica, esta palavra é usada para mencionar aquele que acusa.

- Primeira-dama: o hífen é usado para informar que é referência à primeira dama na hierarquia, e não à mais idosa.

- Pé-direito: usa-se hífen para que não se pense ser referência a algum pé do lado direito, mas sim à altura que vai, em linha reta, do pé ao teto, em que direito deve ser entendido como reto, direto.

- Primeiro-ministro: o hífen é usado para informar que a referência não é ao primeiro ministro na ordem cronológica, mas sim ao ministro principal.

- Bem-vindo: essa tradicional e maltratada saudação de boas-vindas precisa ser marcada com hífen para que não se pense em algum bem que está chegando.

- Ano-Novo / Ano novo: com hífen, faz-se alusão apenas à comemoração de passagem de ano; não se usando hífen, os votos se estendem ao ano inteiro.

Portanto, a atenção ao princípio que norteia o uso do hífen em palavras compostas representa passo determinante na decisão sobre seu emprego. Aliás, não ocorre o mesmo com o Direito, em que os princípios orientam os argumentos a serem invocados?

Ainda o “etc.”

Para minha alegria alguns leitores se manifestaram a respeito da abordagem que fiz no Escreva Direito anterior sobre a abreviatura “etc.”. Exemplo curioso é o do médico Edson Oliveira, de Viamão (RS), conhecido autor de crônicas publicadas regularmente no jornal Opinião, daquela cidade, que, contrariando afirmação feita por mim de que a forma por extenso não tem uso, utiliza “etecéteras”.

Ocorre que o Dr. Edson emprega a palavra de forma criativa, intencional, em textos de características da estética literária, e isso é percebido assim pelo leitor, dando-lhe legitimidade.


A PALAVRA DO LEITOR

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