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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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Escolhida a seleção dos filósofos e o treinador



Foto: Creative Commons

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Quarentena, futebol parado, IVI bocejando, resolvi chatear os leitores com um assunto que é a antítese da linguagem chula, antítese de palavrões. O cunho é lúdico. Ludopédico.

Uma comissão de filósofos de todo o mundo - reunidos na Datcha de Saint Joseph, no lugarejo de Wald der Kräuter, no profundo da Alemanha - escolheu a seleção de filósofos de todos os tempos, nas respetivas posições, além do treinador e o supervisor.

Goleiro e setor defensivo ficaram com os ontologistas de várias espécies. Do meio para a frente, os epistemólogos, de várias vertentes. Afinal, com a modernidade a filosofia foi sendo substituída pelas teorias do conhecimento, que são formas de epistemologia. Claro que os hermeneutas como Gadamer e Heidegger advogam uma ontologia de outro modo, a fenomenologia hermenêutica. E não são epistemólogos.

Enfim, eles que são filósofos, que se entendam. Vamos ver a seleção de futebol, que é o que interessa.

Como goleiro foi escolhido Hans-Georg Gadamer, porque acredita em verdades (afinal, sua obra prima é Verdade e Método, que pode ser lida como V contra M). Um gol não é um gol feito por partes. Um gol exsurge de uma jogatio (ou applicatio). Os relativistas tentaram emplacar Nietzsche na posição, porém, tinha um problema seríssimo: achava que gols não existiam, só existia a interpretação de gols.

E Nietzsche ainda tomava muitos cartões. Sempre fazia confusão, queria mandar na zaga, no juiz, e dizia ainda que tinha razão, que era apenas sua vontade de poder (Wille zur Macht).

Lateral direito: Aristóteles – com sua jogada substancial: o drible da ousadia (essência de gol); Lateral esquerdo, Platão, com sua jogada eidética (ideia de gol); zagueiro pela esquerda, Heidegger, com seu modo-de-ser-jogando; o outro zagueiro escolhido foi Tomás de Aquino, o santo da zaga. (Bem podia ser goleiro; especialista em milagres, afinal.)

Meio campo e capitão: Habermas, com sua razão comunicativa; seus companheiros escolhidos foram Wittgenstein, sempre procurando a linguagem no contexto para melhor distribuir o jogo – embora o velho Ludwig tivesse lá sua personalidade difícil – e Descartes, nome mais contestado, face à sua característica de achar que o que vale é o seu mundo interior, o seu pensamento sobre o jogo e não a estrutura exterior formada pelo que dizem os experts do futebol. Queria resolver sozinho. Quando ouvia dicas, dos companheiros ou na televisão, duvidava. Só tinha certeza de si e de Deus, a quem agradecia quando marcava.

(Se bem que aqui, em duvidar da IVI, ele tinha razão...!)

No ataque, o centroavante escalado foi David Hume, empirista da cepa: de uma jogada ruim (o é) não se pode tirar um deve ser (a troca do estilo de jogo); ponta esquerda, Marx, por óbvio; ponta direita, Hegel, o que causou uma confusão em face dos jovens hegelianos de esquerda, que foi apartada pelo capitão Jürgen (Habermas).

(Os comentaristas da IVI deram seu parecer sobre a briga, dizendo que a culpa era dos neohegelianos que não aproveitaram os insights do neokantismo da Escola de Baden; claro, isso não quer dizer absolutamente nada.)

O técnico escolhido foi um misto de filósofo e jurista: Ronald Dworkin, que foi campeão pelo Hedgehogs Foot Ball Club, em um embate memorável na partida da Champions, em que derrotou o Positivism F.C nas partidas de ida e volta.

O esquema de Dworkin é o 3-5-1-1, que ele chama de “fator ouriço”. Ele queria Gadamer como capitão, mas a turma de neokantianos e quejandos fez pressão para que Habermas fosse o escolhido. Ele aceitou, porque sabe fazer ajustes institucionais. Agora, esquema ele não abre mão! Questão de princípio. E sempre dizia que ouriços, afinal, sabem de uma grande coisa. Ficar mudando o time é coisa de raposa...

Eis a seleção do mundo! Grande time. Cheio de craques. O supervisor escolhido foi o prof. Ernildo Stein. O problema é se entenderem. Porque tem de tudo. Nem sempre um conjunto de craques faz um timão.

O técnico Dworkin terá muito trabalho para enfrentar seu primeiro adversário. Qual será? Mistério.

Acho que será contra o Ministério dos Palavrões. Ali têm os grandes “filósofos da República”... tipo, ah, deixa prá lá. Ou contra Reco-Reco, Bolão, Azeitona... Ou contra o Imprecionante FC (com c).


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