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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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Reclamantes colorados



Arte Espaço Vital

Imagem da Matéria

Considero que a minha experiência profissional foi abrangentemente útil. Primeiro advoguei por treze anos e depois trabalhei vinte e um anos como magistrado. Agora, novamente a advocacia.

Conheci a sala principal e os porões, o que me permitiu formar um juízo crítico e não de aparência. A sala de audiências no primeiro grau de jurisdição é uma vitrine de humanidade.

Atuando como juiz substituto em Porto Alegre, fui designado para uma determinada vara. Lá estava como secretário de audiências o Zeca Kiechaloski. Ele é um artista, detentor de uma sensibilidade aguda.

No intervalo da primeira audiência, olhou para mim e ponderou: “Os juízes de um modo geral não olham para as partes. Mas seria importante que o juiz capturasse no olhar das partes as incertezas, curiosidades e ansiedades”.

Aquilo ficou martelando e, de imediato, me veio à lembrança o que um hospital estava praticando. Médicos e enfermeiros no início da carreira, inesperadamente, eram submetidos a atendimentos na emergência.

O sentido da observação do Zeca e a atitude do hospital é a de não banalizar aquilo que é desconhecido e ao mesmo tempo importante para os outros.

Certo dia, na pauta, a audiência de uma ação de um bancário reclamando em face de um grande banco. Apregoada a sua testemunha, colega do autor, ingressa na sala de audiências uma jovem que, como dizia minha avó “era de fechar o comércio”.

Ela e o seu perfume tomaram conta do ambiente impactando a todos. Cabelos longos, volumosos e soltos. Ao sentar, passou a, repetidamente, jogar toda a sua cabeleira para um lado e, depois, novamente para o outro.

Ela foi qualificada, advertida e compromissada: “A senhora tem obrigação de dizer a verdade e quando não souber, diga ´não sei´. Caso falte com a verdade poderá ser processada e eventualmente, condenada e presa.

Em seguida, ela disse: “Doutor faça comigo o que o senhor quiser”...

Aliás, não são raras as produções e as reações para impressionar juízes e juízas. Todos conhecem os meus vínculos com o Internacional - e, nessa linha, um fato desafiava a minha compreensão. Nas minhas audiências os reclamantes seguidamente ostentavam a camiseta colorada. A contar por ali, os reclamantes seriam quase cem por cento colorados.

Passado algum tempo, me dei conta do objetivo da concentração colorada...

Sempre entendi que em locais fechados, em sinal de respeito, deve-se tirar a “cobertura”. Pois numa tarde, ingressa na sala de audiências um rapaz usando um boné do clube tricolor. Olhei para ele e solicitei que tirasse o boné: “O senhor tire o boné por favor. Além disso o senhor está com o boné errado”...

Ele acedeu. Todos riram muito, esclareci que era uma brincadeira e que para a Justiça não importava a preferência clubística das partes. Esta é uma verdade jurisdicional com trânsito em julgado.


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