Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
https://espacovital.com.br/images/jusazul.jpg

Porque a IVI e a CIA deveriam ler Gulliver e “1984”!



Protágoras foi o primeiro sofista. Um grande sofista. Dele vem a tese de que o homem é a medida de todas as coisas. Por que isso? Porque o próprio corpo era o meio para dizer o mundo.

Como media as distâncias? Em pés, braças, palmos. Como dizia “espera um instante”? “Um piscar de olhos” (em alemão, Augenblick, que quer dizer “um momentinho”).

Para dizer um palavrão? Igualmente entra em jogo o corpo: bundão. “Fulano é um pé no saco”. Aliás, nas principais línguas palavrões são construídos desse modo.

Até o acostamento das estradas tem o nome, em espanhol, de orillas. Fugir se diz “deitar o cabelo”. E se carrega o mundo nas costas. E não se deve meter o nariz nas coisas dos outros. E assim por diante. Coletei mais de cem termos em um texto que escrevi sobre a questão “Coisas e Nomes”.

O futebol, que ao que parece já existiu na China há mais de 2.300 anos, tem uma característica de guerra. Vejam os termos – e daí a questão da “justeza dos nomes” (lembremos o Crátilo, de Platão) – como chute forte é “bomba”. O goleiro é “arqueiro”. Ou “guarda valas”. O atacante é artilheiro. O meio campista faz assistências ao artilheiro.

Se o corpo foi para Protágoras o ponto de estofo para dar os nomes às coisas, no futebol o lugar dos sentidos é a guerra.

As torcidas gritam feito guerreiros. São tribos dispostas a pelearem com as outras tribos. Vejam os barrabravas, os holligans (e os gaviões, e a Geral, a Guarda Popular, etc.).

Mas o futebol é ludo. Jogo. Ludopedismo. Lúdico quer dizer “visar ao divertimento acima de tudo”.

Talvez por isso gostamos tanto de futebol. Conhecemos as regras, podemos xingar o juiz, dizer palavrões e fazemos a nossa guerra particular, torcendo para os artilheiros furarem a defesa e a barreira do adversário.

Por isso tudo, deveríamos aproveitar melhor os espaços nos meios de comunicação para tratar mais de cultura. Ludopedismo é algo terno, divertido. Mas não precisa ser o espaço para dizer qualquer coisa. Nestes tempos de pandemia e sem bola rolando, parece que muitos radialistas não aproveitam o tempo para ler um bom livro, para, assim, aprimorar a cultura.

Ler “Viagens de Gulliver” ensinaria aos comentaristas de arbitragem o melhor modo de compreender o sentido do chavão “é questão de interpretação”. Bah.

Depois de ler Gulliver, até a CIA – Comentaristas Isentos de Arbitragem melhoraria seu vocabulário.

Muitos jornalistas deveriam ler a “Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis. Alguns repórteres poderiam se ver em “Ideias de Canário”, do mesmo Machado. E assim vai.

E a IVI – Imprensa Vermelha Isenta - deveria ler “1984”, de Orwell, já que ficam trocando o nome das coisas, como o Ministério da Guerra ser chamado de Ministério do Amor. Se não entenderam por que estou dizendo isso, eis aí um motivo para lerem mais.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Mais artigos do autor

O terraivismo, versão do terraplanismo futebolístico

Manchete de Pedro Ernesto: “Dupla Gre-Nal agoniza financeiramente na pandemia”. Ora, o Grêmio pode não estar tão folgado. Mas, por favor, comparar com as finanças do Inter, só com a tese dos dois demônios. O momento já tem até um slogan da IVI: “Vamos arranjar uma crise gremista”!

Foto: Creative Commons

Escolhida a seleção dos filósofos e o treinador

 

Escolhida a seleção dos filósofos e o treinador

“Quarentena, futebol parado, IVI bocejando, resolvi chatear os leitores com um assunto que é a antítese da linguagem chula, antítese de palavrões. Entre os escolhidos, unanimidade para Aristóteles, relembrado neste busto construído para homenagear o Liceu criado pelo filósofo”.