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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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O crente que pecou



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O constituinte de 1.988, adotou como preceito a liberdade de crença religiosa. O Estado, além de laico, está impedido de interferir nas atividades religiosas. Não raramente e, apesar disso, nos ambientes judiciais há crucifixos nas paredes como se todos os brasileiros fossem cristãos.

O permissivo, quando distorcido, tem servido para encobrir ilegalidades que em nada se coadunam com o respeito às pessoas e aos animais. Em nome da fé são praticadas extorsões e, em nome da fé, maus tratos aos animais.

Em uma manhã agradável em Cachoeira do Sul (RS) na sala de audiências, me preparava para mais um dia de pauta. Muito embora nascido e criado em Porto Alegre sempre invejei a vida pacata e organizada do interior.

Em outra oportunidade quando em Santa Cruz do Sul (RS) após almoçar com um amigo que me visitava, pedi licença para levar roupas à lavanderia, passar em uma eletrônica e em uma farmácia. Após concluir o périplo, entrei no carro e ele comentou: “Fomos a três locais diferentes, estacionaste o carro na frente deles e no total foram consumidos apenas oito minutos”.

Mas, retornando a Cachoeira do Sul - ali, sob o comando da diretora Miriam, em torno das 15h., na cozinha e disponível aos servidores e advogados, de segunda a sexta havia uma mesa com café, pão, cuca, biscoitos e o permanente chimarrão.

A primeira testemunha era um rapaz que, como dizia o Brizola, vestia-se com camisa de mangas curtas e gravata larga. Era uma alusão aos “gringos” que vinham como missionários americanos – em baixo do braço em trazia uma bíblia. Com certeza eu estava diante de um “crente” ou pregador.

Perguntei:

- O senhor é parente, amigo íntimo ou inimigo de qualquer uma das partes?

A resposta foi imediata e firme:

- Não, meritíssimo... (expressão típica dos filmes americanos).

Com a carteira de identidade dele em minhas mãos, verifiquei que o sobrenome era o mesmo do reclamante. Insisti na dúvida do parentesco, ao que ele reiterava a inexistência.

A minha dúvida persistia, razão pela qual remeti a pergunta ao reclamante:

- Ele e é seu parente?

Prontamente, respondeu que sim.

Além de dispensar a testemunha comentei: “Admira-me muito que o senhor, com uma bíblia nas mãos, cometa um pecado.

Bem, a partir disso, diariamente ao chegar no prédio da vara, ru encontrava o homem na porta sempre com a bíblia, pedindo para conversar comigo.

Durante aquela semana driblei a pretendida conversa pois a decisão estava tomada e fundamentada.

Fui alertado pela servidora Miriam que a insistência tinha origem na recomendação do pastor, a quem a “testemunha” revelara o fato. Era necessário, segundo o pastor, que eu o perdoasse.

Quando finalmente conversamos, recebendo-o no gabinete, exposto por ele o problema, pensei por alguns segundos e apontando o dedo para cima disse:

- Está fora da minha competência, o senhor tem que resolver com Ele. (E acentuei que se tratava de Ele com ´E´ maiúsculo...)

Foi assim que declinei da competência que o pastor havia me atribuído.


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