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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
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Corona no coroa



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB/RS nº 7.968)

 

Na pequena cidade do interior, vivia o sexagenário médico que se notabilizou pelo seu desprendimento profissional no trato de seus pacientes. Era um homem calmo, manso e cumpridor de seus deveres profissionais familiares. As duas filhas adolescentes eram tão lindas como a mãe delas, esposa recatada e genitora exemplar, bem mais jovem, ali pela casa dos 40 anos.

 

Decorrência de sua desprendida atuação no pequeno hospital da cidade, o médico foi infectado pelo coronavírus. Testado positivo, foi colocado em quarentena em casa mesmo, recluso no seu quarto, de onde não saía para nada. Não via as filhas, não via a esposa e assim foi por quinze dias.

 

Recebia a atenciosa assistência da família. Em tempos normais ele nunca estivera em casa à tarde, sempre no hospital ou no consultório, por isso estranhava as saídas quase diárias da consorte no meio da tarde. Quando retornava, ela invariavelmente, perguntava como ele estava; e reciprocamente era indagada pelo marido onde tinha ido nestes dias perigosos de contaminação. Tudo através da porta fechada do quarto do confinamento.

 

– Fui no supermercado e na farmácia. Depois dei umas voltas de carro, pois estou muito estressada por ficar presa em casa...

 

A diversão do doutor, entrementes, era seu celular. Recebia muitas mensagens e algumas deletava logo, pois, como bom chefe de família, tinha receio que as filhas adolescentes vissem aquelas poucas-vergonhas que postavam.

 

Um dia, achando que reconhecera uma protagonista do vídeo que chegara - estranhamente remetido por uma amiga - o médico teve uma surpresa. Era sua mulher ao natural, com um conhecido advogado da cidade, coincidentemente (talvez nem tanta coincidência) o marido da amiga remetente das imagens pornôs.

 

Interrupção da quarentena, veio a audiência do divórcio. Como advogado da esposa adúltera, o próprio protagonista do vídeo; e como advogada do médico, a mulher traída, a que fizera circular o vídeo. Foi decretada a dissolução conjugal, até porque a circulação das imagens fora por quase toda a população dali.

 

Todos continuam morando na mesma cidade. Só que, agora - segundo a minuciosa “rádio-corredor” - os casais são o médico e sua advogada; e o advogado e sua cliente.

 

Tudo na mais santa paz. Como se diz lá fora, se ajeitaram!


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