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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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Meu (muy) amigo computador



Imagem (2003) Randy Glasbergen

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A advogada Regina Moraes Regius, sempre zelosa no correto e eficiente uso do idioma em todas as suas atividades, diz-se inconformada com o seu computador, por este se “antecipar ao seu conhecimento”, eliminando o acento que ela digita em formas verbais acompanhadas de pronome oblíquo, como “fixá-lo”, “compreendê-lo”, entre outras. Digita-se o acento, mas o computador o retira, sendo necessário voltar lá para inseri-lo novamente. Dá mesmo vontade de lhe aplicar uma boa chinelada, o que, claro, não resolveria.

Dra. Regina, console-se, pois muitas vezes fui – e continuo sendo – vítima desse problema, que é uma deficiência do Word. As primeiras vezes que me aconteceu sem eu perceber, na condição de professor de Língua Portuguesa, tive o conceito severamente rebaixado, o que provocou minha áspera reação: Quem é ele para meter seu bedelho? Na relação com o computador, aprendi com essa e outras limitações que é importante colocá-lo (olha aí outro perigoso exemplo) em seu modesto lugar: um instrumento a meu serviço, que, portanto, não tem o direito de se “antecipar ao meu conhecimento”.

No entanto, é importante manter relação produtiva e harmoniosa com ele. Para isso, é preciso saber que a inteligência dele nos campos da matemática e da lógica formal é ilimitada (é preciso reconhecer...), mas sua inteligência intuitiva é nula; esta é exclusiva do ser humano. Algumas normas gramaticais são subjetivas, dependentes da inteligência intuitiva, não podendo ser interpretadas e aplicadas pela inteligência artificial do computador. É exatamente aí que ele, por falta de humildade e de reconhecimento de suas limitações, invade minha seara e faz esse tipo de intervenção que não lhe cabe.

Enfim, Dra. Regina, até com o computador é preciso ser compreensivo. Portanto, em nome da paz nessa relação e da eficiência dos nossos textos, é preciso perdoar-lhe esses abusos. O que é de se esperar é que os programadores fiquem atentos e resolvam esse tipo de problema nas relações usuário-computador, mas será que não falta humildade também para eles?

Ainda as sutilezas do significado

O advogado e escritor Antonio Silvestri, ao ler “As sutilezas do significado”, no Escreva Direito da semana passada, lembrou-se de alguns casos em que ocorre adaptação de significado a novas situações em que as palavras são usadas. Ele os compartilhou. Observem:

- LEGAL: Como se nada tivesse a ver com a legalidade, exploramos sutil, quase imperceptível, semelhança e usamos na linguagem coloquial para dizer que está bom, está bem, tudo em paz, tudo tranquilo.

- ACHAR: Esquecendo que achar é resultado do ato de procurar, usamos com o sentido de ter opinião, de entender (é certo que procuramos em nosso cérebro...). Exemplos: Eu acho que existe vida fora da terra, acho que não vou; acho que não é assim. Em texto argumentativo, este uso deve ser evitado, porque empobrece o argumento; se apenas acha, é porque não tem certeza.

- SECAR: Argumenta Antonio Silvestri sobre a frase “A água do rio secou”: “Mas existe água seca?”. Antes que alguém pesquise sobre o assunto, corrija-se a frase: “O rio secou”.

- LUZ/LÂMPADA: Pedem para ligar a luz, mas o que se faz é ligar a lâmpada. Consagrou-se também acender a lâmpada, quando o sentido original de “acender” é atear fogo, forma mais antiga de fazer luz.

- DAR: Dizemos que “não deu” para superar o obstáculo. Não deu, ou não foi possível? Outra vez, a palavra assume novo significado.

- CORTAR: Por semelhança com o sentido original, usamos “cortar” caminho, em vez de encurtar, abreviar. Qual a semelhança? Resposta: tudo o que se corta fica mais curto...


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