Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.

Ressuscitem Churchill !



Foto: Visual Hunt - Arte EV

Imagem da Matéria

Por José Aquino Flores de Camargo, desembargador aposentado do TJRS e advogado (OAB-RS nº 12.586) (*)

Não costumo escrever aqui, mas a angústia dessa tortura que se prorroga provoca a ansiedade. Sou um privilegiado, portanto falar, na minha ótica, significa demonstrar o mínimo de empatia com o drama dos outros. As pessoas estão esgotadas.

Ninguém atura mais esse discurso. Bandeira vermelha só no Beira Rio. E preta é lá no Corinthians. O pico já subiu e desceu inúmeras vezes. Isso parece filme pornô. Desculpem a ironia..

Enquanto o vírus era exclusivamente da camada alta da população, exigiu-se solidariedade: todos para casa, para quebrarmos juntos. Agora, o vírus está na comunidade. Isso seria inevitável cedo ou tarde. Mandar para casa é exigir que o contágio se dissemine lá mesmo. E que fiquem à sua própria sorte…

Ninguém pode ignorar a alta densidade populacional na periferia dos centros urbanos. Tampouco passam despercebidas as precárias condições sanitárias de vida. Mas não é isso que os protocolos de saúde querem evitar: aglomerações em pequenos ambientes fechados? Agora, além de quebradas, desempregadas, as pessoas ficarão desesperadas.

Depressão traz tristeza, conflito, desesperança e violência. Pior que o vírus é a falta de saúde mental. Reações desproporcionais serão rotina do comportamento social. Essa história, portanto, será melhor interpretada logo adiante.

Não pode ser avaliada pelo número absoluto de mortes; será pelos efeitos deletérios e devastadores que ela poderá produzir. Até agora, estamos sendo conduzidos como rebanho pela lógica do pensamento único: quem discorda é rotulado por atentar contra valores básicos de vida.

Que falta a humanidade sente de um homem como Winston Churchill. Não se vence uma guerra sem sangue, suor e lágrimas. Falta-nos o mínimo de enfrentamento. Deixamos os profissionais da saúde sozinhos. Enquanto eles se arriscam, pouco se produziu para sustentar o povo em pé. Churchill dizia, reverenciando aos jovens pilotos ingleses: “Nunca muitos deverão tanto a tão poucos…”

O mesmo há de se dizer em relação aos nossos profissionais da saúde. A diferença é que lá, o resto da população tratou de trabalhar e produzir condições de enfrentamento. Que depois se viu foi a força para destruir o nazismo. Aqui, ficamos em casa para quebrar, esperando o milagre da vacina. E, dizem, até medicamentos e insumos já estariam faltando…

Que Deus nos ajude, porque nós estamos sentados.

Ninguém imagina irresponsabilidade: proteção aos idosos e vulneráveis. E eu os tenho muito próximos, portanto sou insuspeito. E sei que eles preferem o risco do afeto à ausência da solidão devastadora.

E vamos, aqueles que podem, respeitando os protocolos de saúde, ao trabalho, para ajudar nossos heróis nessa guerra.

Fechar e lacrar não parece mais possível. Definitivamente, a vida tem que seguir.

Até em respeito aos que tombaram!”

___________________________________________________________

(*) Artigo originalmente publicado no jornal digital O Sul. Leia na origem.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Notícias Relacionadas

Imagens: Freepik - Arte EV

O TRT-4 e o juízo natural

 

O TRT-4 e o juízo natural

“O CNJ e o STF reconhecem a óbvia proibição de designar juiz para processo específico. Mas, na Avenida Praia de Belas, em Porto Alegre, há um Estado com leis próprias e conflitiva relação com o direito brasileiro”. Artigo do advogado Henrique Júdice Magalhães.

Uma boa ideia, mas com reflexos desconhecidos

“Nem tudo que reluz é ouro. Os juízes que fossem para os cargos transitórios do ´mutirão da solidariedade´ - que o TRT-4 pretendeu criar -  respeitariam a jurisprudência consolidada do segundo grau? Ou aproveitariam para firmar suas convicções?” Artigo do advogado Thiago Rocha Moyses.

O trem não descarrilou

“Impulsionado pelo exercício da advocacia trabalhista há mais de dez anos, reconheço a pertinência da Resolução nº 14/2020 (...) Mas, com a necessária humildade, a administração do TRT-4 deve colher a lição, aproveitando instâncias consultivas com integrantes externos ao Judiciário e promover esclarecimentos e consultas prévias. O Judiciário não pode desconsiderar os novos tempos”. Artigo do advogado Jonatan Teixeira (OAB/RS nº 69.752)