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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 23 de outubro de 2020.
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A máscara do desembargador



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Em meio à pandemia de Covid-19, dois guardas municipais que patrulhavam a praia avistam um senhor que caminhava, sem usar máscara. Os patrulheiros instruem o cidadão a vestir sua máscara, sob pena de multa. Por sua vez, o infrator abre um sorriso irônico e os confronta, com arrogância:

- Os senhores sabem com quem estão falando?

Os calejados guardas entreolham-se, incrédulos, por anteverem que, mais uma vez, terão que presenciar a cena patética de um ser humano comum descobrindo não ser um semideus.

Tantas vezes os agentes já testemunharam esse fenômeno, que já até criaram um nome para ele: “Agonia do Ego” ou “Egonia”. Trata-se daqueles momentos que antecedem a morte da ideia que a pessoa criara sobre si mesma. Um momento de grande crescimento pessoal em que - até a hora fatídica quando o sujeito cai na real - o ego agonizante profere as maiores idiotices.

No presente caso, não foi diferente:

- Escute, amigo, sou um desembargador! Já você é só um analfabeto que não sabe no que está se metendo.

- Insisto para que o senhor coloque sua máscara, ou terei que multá-lo - contesta um dos guardas.

Agora o magistrado resolve humilhar de vez os agentes, abusando da ironia:

- Menino, guarde seu bloquinho de multas. Não há razão para me autuar. Estou usando máscara, só que ela é feita daquele famoso tecido que só os inteligentes podem ver. Vocês conhecem a estória da “Roupa Nova do Rei”? Fiz minha máscara desse tecido! Mais do que natural que vocês não a vejam.

Um dos guardas percebe que é chegada a hora do choque de realidade, sempre doloroso, tanto para a pessoa “egonizante”, quanto para os agentes:

- Pois ao contrário do que pensa Vossa Excelência, consigo ver claramente a máscara que o senhor está usando e, para sua vergonha, qualquer um consegue. Ela pode ser muito útil no fórum. Lá, todos têm interesse em agradá-lo, mas aqui fora é diferente.

- Do que você está falando? Todos que me rodeiam me respeitam! - esbraveja o meritíssimo.

- Sim, mas o senhor já parou para pensar quem o rodeia, ultimamente? O senhor está sozinho aqui na praia. Como trata seus vizinhos? Seus familiares? Seus amigos o têm procurado? Acho que o senhor já estava em isolamento social muito antes dessa pandemia.

O desembargador agora está vermelho de raiva, mas em silêncio. Um filme passa diante de seus olhos. Por diversas vezes, ensaia alguma resposta desaforada, mas nada diz.

Em seguida, resignado, ele lentamente enfia a mão no bolso, retira a sua máscara feita de algodão e a acomoda em seu rosto.

- Com essa atitude o senhor conquistou nosso respeito, excelência. Tenha um bom dia!

Dito isso, os guardas continuaram sua ronda, quando ouvem alguém a lhes chamar. Era o desembargador, que gritava, sorrindo por detrás de sua máscara:

- Ei! Os senhores esqueceram de me multar!


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