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Porto Alegre (RS), terça-feira, 22 de setembro de 2020.
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A testemunha (mal) falante



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB/RS nº 7.968)

O jovem juiz - recém ingressado na magistratura - abre a audiência da ação de divórcio. A autora é Dona Natalina, senhora dos seus cinquenta e tantos anos, orgulhosa dos seus dotes físicos. Trata-se de uma daquelas mulheres de quem se pode dizer que não era bonita na acepção cheia da palavra, se me entendem, mas que não deixa de mostrar uma jovialidade meio extravagante.

O marido, seu Doralino, é passado dos sessenta, e mantém aquela rotina própria dos servidores públicos do município. Vive uma vida sem atrativos e sem qualquer brilho. É um "apagado", como a esposa costuma se referir à pessoa do próprio cônjuge.

Entra a primeira testemunha da autora, Gertrudes Maria Paz.

- Dona Gertrudes, a senhora é parente, amiga íntima ou inimiga das partes aqui presentes? – pergunta o juiz.

- Sou grande amiga dessa ali, a Natalina, aqui presente. De longa data, ela está sempre lá em casa, me conta cada coisa que o senhor nem imagina!...

- A senhora será ouvida como informante - esclarece o magistrado.

A testemunha atalha a fala do juiz e lasca tudo de um só fôlego:

- Então eu lhe informo, doutor. Eu sei porque a Natalina quer se separar do seu Doralino. Ela gosta muito de linguiça, mas em casa ela não conta com o Doralino. Ele é muito pão-duro, nunca tem linguiça boa, nem tem um bom fogão em casa. Ele não esquenta nada. Cada vez que a Natalina quer comer uma linguiça consistente e apimentada tem que pedir para uns amigos. Às vezes eu até empresto o meu apartamento...

- Ah, sim, claro, está certo! – constrangido pela surpresa da fala, o juiz interrompe, logo que possível. E completa, ditando ao escrevente: "Nada mais lhe foi perguntado e a testemunha foi dispensada".

Como advogado de Doralino, o doutor Arencéfalo suspira aliviado. E o doutor Adão, o causídico que representa Natalina, fica sem reação, pois havia conversado antes com a testemunha, pedindo-lhe que só falasse quando o juiz perguntasse.

O divórcio só poderia terminar como finalizou: foi consensual. Agora os vizinhos dos ex-cônjuges frequentemente sentem o cheiro de linguiça cozinhando, vindo diretamente do apartamento que era do casal - e que, na partilha, ficou para dona Natalina.

Bom apetite!


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